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Brasil

17/05/2017


Revista NORDESTE: Oposição ao Papa

Francisco enfrenta resistência de bispos e cardeais a suas ideias progressistas e mudanças em tradições de quase dois mil anos da igreja católica

Por Pedro Callado

O Papa Francisco, pontífice desde 2013, é sem dúvidas amado por muitos. Em pouco tempo no posto mais alto da Igreja Católica, o argentino quebrou muitos barreiras, criou comissão para combater abuso sexual de crianças na Igreja, fez duras críticas ao capitalismo e ajudou a reaproximar Cuba e EUA. Também chama a atenção sua defesa de uma Igreja mais tolerante em questões de família – já pediu a sacerdotes que não tratem divorciados como excomungados e procurem acolher católicos homossexuais. Ainda que isso tenha atraído uma atenção positiva, há quem não goste.

A oposição ao papa Francisco se faz cada vez mais presente e visível. Há quem minimize esse movimento, mas outros acreditam que o papa possa estar no centro de uma trama política sofisticada com objetivo de enfraquecê-lo.

Eleito em março de 2013 após escândalos que abalaram a imagem do Vaticano, o papa tomou medidas e fez declarações de impacto que polarizam opiniões dentro e fora do mundo católico. "O Papa é o vigário de Cristo na Terra, mas não é Cristo. Pode errar, pecar e até ser corrigido. Não concordo com seu modo de governar. A Igreja está hoje imersa em confusão e desorientação: os fieis precisam de certezas, mas não conseguem encontrá-las. Corremos o risco de uma cisão", diz Roberto De Mattei, presidente da Fundação Lepanto, que faz campanha pela "defesa dos princípios e instituições da civilização cristã".

Cresce hoje na Igreja a resistência ao Papa Bergoglio. O site LifeSiteNews publicou uma lista de bispos e cardeais que expressaram publicamente o seu apoio ou a sua oposição às “dubia” (dúvidas) apresentadas pelos quatro cardeais ao Papa, em 16 de setembro de 2016. Não são poucos, e a eles deve ser adicionada a voz de quem, como o cardeal Joseph Zen, critica o papado bergogliano por sua política a favor do governo comunista chinês, apelidando-a de “diálogo com Herodes”. Enquanto alguns católicos fiéis aos ensinamentos mais tradicionais da Igreja já denunciam a novidade de um pontificado que, segundo eles, desvirtua a moral da igreja, os inovadores estão insatisfeitos com uma “abertura” que ocorre ainda maneira mais implícita do explícita, sem materializar-se em gestos de verdadeira ruptura com o passado. O correspondente de “Der Spiegel”, Walter Mayr, em 23 de dezembro último, citou algumas palavras que o Papa teria confiado a um grupo restrito de colaboradores: “Não é impossível que eu passe para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica”.

Papa e política

Um dos cardeais que assinaram a carta pública contra a encíclica Amoris Laetitia, o americano Raymond Leo Burke teve reunião recente com Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita italiano Liga do Norte.

Com discurso anti-imigração, Salvini fez duras críticas ao papa quando o pontífice visitou um campo de refugiados na ilha grega de Lesbos, em abril de 2016.
"Com todo o respeito, o papa está errado. Parece-me que a catástrofe ocorre na Itália, não na Grécia. Ele quer convidar outros milhares de imigrantes para a Itália? Uma coisa é acomodar os poucos que escaparam da guerra, outra é incentivar e financiar uma invasão sem precedentes. Tem pobres na Grécia, mas também a dois minutos do Vaticano", afirmou o político, que já foi fotografado usando camiseta com a frase "Meu papa é Bento", referência ao antecessor de Bergoglio.
Para Roberto De Mattei, da Fundação Lepanto, não é a direita que se opõe ao papa, mas é a esquerda que quer torná-lo um símbolo. "Os movimentos de esquerda querem fazer dele um anti-(Donald)Trump porque não dispõem de outras pessoas carismáticas."

Pedofilia na Igreja

O Papa Francisco nomeou um novo funcionário para supervisionar o escritório do Vaticano que analisa os casos de abusos sexuais cometidos por sacerdotes. A promoção do Monsenhor John Kennedy ao porto de chefe da seção disciplinar da Congregação para a Doutrina da Fé é a segunda nomeação num intervalo de dias relacionada com os casos de pedofilia. No sábado, Francisco indicou o reverendo Hans Zollner, um dos principais especialistas da Igreja Católica no combate ao abuso e proteção das crianças, como assessor do escritório do Vaticano para o clero. O movimento acontece num momento em que o Papa e o Vaticano se encontram sob fortes críticas em relação às políticas de combate à pedofilia na Igreja e de punição aos envolvidos. No dia 1º de março, Marie Collins, uma vítima de abuso sexual cometido por sacerdotes, renunciou ao cargo que ocupava na Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores, criada em 2014 exatamente para investigar esses crimes. Segundo ela, havia uma resistência “inaceitável” às propostas da comissão por alguns organismos da Santa Sé.

A renúncia de Marie trouxe à vista a distância cultural entre os especialistas independentes da comissão, que propuseram novas ideias para a proteção de menores, e a realidade burocrática do Vaticano com suas limitações legais e administrativas. Kennedy foi assessor do ex-chefe da comissão disciplinar, o reverendo Miguel Funes Díaz, um dos três funcionários da congregação que renunciaram recentemente. O porta-voz do Vaticano, Greg Burke, afirmou que Francisco já havia aprovado os substitutos, e vai adicionar mais pessoas para lidar com os casos, que demoram entre dois e três anos para serem analisados.
 

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