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Brasil

15/03/2017


Revista NORDESTE: Rindo na cara da morte

exclusivo

Cemitério no Piauí faz sucesso na internet com postagens bem humoradas sobre morte

Por Jhonattan Rodrigues

Com algumas exceções, a morte culturalmente é um momento de pesar, de perda de entes queridos. Cemitérios, portanto, têm sido vistos ao longo dos tempos como lugares tristes e sombrios, mesmo para quem não acredita em espíritos ou em vida após a morte. Para algumas pessoas é um lugar de azar. Na era das redes sociais, como fazer uma campanha de marketing sobre um assunto tão funesto? Um cemitério no Piauí resolveu reverter essa visão e passar uma imagem, digamos, cômica da morte. E está dando muito certo. Pegando embalo na onda dos ‘memes’ o Cemitério Jardim da Ressurreição está fazendo sucesso nas redes sociais com imagens humoradas que fazem trocadilhos e piadas com a morte. À primeira vista pode-se pensar que a página não é séria, um desses perfis falsos que fazem uma brincadeira tão convincente que chegam a enganar. Mas uma olhada mais a fundo e se descobre que a coisa é séria.

As postagens giram em torno de piadas e trocadilhos com o tema da morte e dos rituais de passagens, com postagens do tipo “Gente tão especial que dá vontade de guardar num potinho”, com a foto de uma urna crematória ou “Já que domingo é um dia morto, venha para uma missa de corpo presente”. Também apostam em ‘memes’ e gírias da internet adaptadas para o contexto dos cemitérios, como “queria estar morta”, ou uma lápide com o epitáfio “esperando pelo crush”.

Fundado em 1977, o Jardim da Ressurreição, como qualquer empresa, com a chegada da internet foi para as redes sociais. Voltando um pouco na linha do tempo, as postagens tinham um teor bem menos humorado, apostando em postagens com frases filosóficas ou de superação, com imagens da natureza ou de família, bem parecido com outras páginas do ramo. E da mesma forma, a resposta do público era bem inferior. É natural imaginar que não se procure muito por páginas de cemitérios e funerárias.

Quando começaram a lançar algumas postagens bem humoradas, logo perceberam que seria uma boa ideia investir nisso. “Comparamos os resultados dos posts institucionais com os mais descontraídos. Já que o assunto cemitério não desperta interesse em ninguém, o humor seria uma forma de desmistificar o tema e despertar interesse na página. Inicialmente os posts eram variados e fazendo a análise resolvemos seguir a linha do que tinha um feed mais positivo”, explica Eudes Jr., diretor da CJFlash, agência que cuida do marketing do cemitério.


Hoje, carinhosamente apelidado de Cemi, o Jardim da Ressurreição já alcançou 63.851 curtidas no facebook e 2.486 seguidores no instagram. Os seguidores da página seguem a mesma linha bem humorada. “Excelente atendimento e serviço. Mal posso esperar para morrer de novo!” “Quando eu morrer, quero ser cremado aqui!!!”, “Só não viro cliente porque quero ser cremada. Mas adorei!”, são alguns dos comentários que podem ser vistos nas redes sociais. Tinha até gente pedindo para que fossem abertas franquias pelo país.

 

Brincadeiras à parte


Ao anunciar que seria o primeiro crematório do Piauí, lançou o post “Habemus Crematorium”, em referência à frase dita quando é escolhido o novo Papa, com fumaça colorida saindo da chaminé do crematório. “Como funciona o nosso "torramento"? É rápido? Não quero ficar muito tempo no forno, sou claustrofóbica”, perguntou uma seguidora. Cemi explica direitinho: “Após o velório, o corpo é submetido a uma temperatura de aproximadamente 1000°C em forno desenvolvido especificamente para isso. Esse processo dura de 2 a 3 horas. Ao final do processo, as cinzas são entregues aos familiares, que decide o que fazer com elas. A cremação só pode ser feita com autorização da família.”


Mas as piadas ficam só nas redes sociais. No mais, o Jardim da Ressurreição mantém um atendimento tradicional. Ser referência como um dos melhores Cemitérios Parque do Nordeste. como explica Eudes Jr.: “Entendemos que a presença do Jardim na internet não pode retratar o mesmo sentimento do "mundo" real (tristeza, dor…), a linguagem adotada para outras mídias convencionais é bem tradicional e segue a linha de um cemitério. Também muitos dos clientes reais do Jardim não são atingidos pelas redes sociais, até o momento não recebemos nenhuma queixa de desrespeito direto de um cliente. Acreditamos que não iremos”, explica Eudes Jr.


No fundo, a ideia não é rir da morte ou da dor da perda. Entenda-se que um cemitério ainda é uma empresa, que toda a brincadeira é uma campanha de marketing cuja finalidade não deixa de ser a promoção de um produto. Está valendo a pena, então? “É muito difícil você converter qualquer mídia em venda de jazigos, pois ninguém tem desejo de ter um […] Ainda existe a cultura de deixar sempre apenas para quando precisar. Mas acreditamos estar fortalecendo a marca e quando houver a necessidade provavelmente seremos lembrados”, diz Eudes Jr.


Diz o ditado que a única certeza que temos na vida é a morte. De fato, é aquilo que nos une. O que para alguns é um tabu, muitos já aceitaram esse destino e veem inclusive beleza nisso. O dia dos mortos, que aqui no Brasil é um feriado de luto, no México, só para dar o exemplo mais famoso, é um dia de celebração, com cores e festa para onde se vê. Acreditam que os mortos voltem nesse dia para nos visitar e são recebidos com banquetes, música e muita cor. O pesar está lá, claro, presente na saudade e nas lembranças, mas assim como na vida, na morte há espaço para alegria também.
 

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