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Professor que exibiu clipe de Criolo e foi demitido, quer deixar cidade.

Conteúdo sobre diversidade abordado no clipe de “Etérea” foi levado para sala de aula e professor acabou demitido; protestos e até uma parada LGBTQIA+ foram organizados em resposta, em Criciúma (SC).

O professor demitido de uma escola em Criciúma (SC) por exibir um clipe de Criolo que trata de diversidade está assustado e, ao UOL, disse ainda não estar preparado para falar com a imprensa. Segundo Jucélia Vargas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Criciúma e Região (Siserp), a principal ação agora é a de garantir a reintegração do docente, que era contratado em sistema temporário, mas, segundo ela, a vaga pode acabar nem sendo ocupada, pois, ele pensa em até mesmo se mudar do município.

“Temos que restabelecer o emprego dele, mesmo que ele não queira trabalhar (no momento), mas ele tem de garantir esse direito. Ele decidiu se recolher e cogitou se mudar da região. Não sabemos se está na cidade ou viajou. O que ele deseja e precisa é se cuidar neste momento, quer se proteger e nós damos todo apoio. Esse, infelizmente, é um país que mata (membros da comunidade LGBTQIA +)”, completa.

Ainda não há certeza se o professor participará da parada LGBTQIA+, convocada para as 14h deste sábado, em protesto contra as falas do prefeito em relação ao caso, consideradas homofóbicas. O evento já recebeu apoio do próprio Criolo, que chegou a ligar e conversar diretamente com o docente, e Caetano Veloso.

Diversos órgãos e movimentos sociais se mobilizaram em defesa do docente, desligado de forma truculenta pelo prefeito Clésio Salvaro (PSDB), que gravou vídeo alegando “não tolerar viadagem”. A declaração veio um dia depois do professor exibir, a adolescentes de 14 e 15 anos, do 9º ano, da Escola Municipal Pascoal Meller uma série de vídeos, entre eles o clipe “Etérea”, de Criolo, que aborda diversidade e chegou a ser indicado ao Grammy Latino em 2019.

 

Prefeito sob investigação

A conduta do prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro (PSDB), que disse “não tolerar viadagem”, será investigada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). O procedimento foi instaurado ontem e ficará a cargo do Promotor de Justiça Fred Anderson Vicente, da 5ª Promotoria de Justiça, com atuação na área da cidadania e direitos humanos.

A notícia de fato foi aberta depois de uma denúncia apresentada por uma cidadã e a partir da divulgação de um vídeo do prefeito nas redes sociais, em que ele afirma que não aceitar “viadagem na sala de aula”.

 

No pedido, é solicitada a adoção de providências com relação à conduta do político e uma avaliação da situação dos responsáveis por alunos LGBTQIA+ que sofrem desrespeito na escola.

 

Segundo o MPSC, o ato “pode configurar ilícitos que ainda serão apurados” e, após análise preliminar, a Promotoria de Justiça pode inclusive enviar o caso para outras áreas, como infância e juventude, moralidade administrativa e criminal. “Vou verificar se a conduta do prefeito violou princípios da dignidade humana previstos na Constituição Federal e na legislação ordinária”, afirma o Promotor de Justiça Fred Anderson Vicente, da 5ª Promotoria de Justiça, responsável pelo procedimento. Uma representação criminal também chegou na 2ª Vara da Promotoria de Justiça de Criciúma.

Uma representação criminal também chegou na 2ª Vara da Promotoria de Justiça de Criciúma. O documento foi entregue pela vereadora Giovana Mondardo (PCdoB) e advogados da Comissão de Direitos Humanos da OAB do município, e será remetido à Procuradoria-Geral de Justiça.

A notícia-crime é assinada por mais de 90 pessoas e instituições, entre parlamentares e grupos de cultura, coletivos LGBTQIA+ e dos direitos das mulheres e por partidos políticos.

O pedido considera o possível crime de homofobia do prefeito Clésio Salvaro. A reportagem entrou em contato com a assessoria do prefeito de Criciúma, para solicitar um posicionamento, mas até o momento, não obteve retorno.

 

Apoio do Artista

A vereadora Giovana Mondardo afirmou que, além da representação, o grupo está prestando apoio jurídico e psicológico ao professor e que um dos maiores apoios veio do próprio cantor Criolo, com quem o professou conversou.

“Eles interagiram, ele tocou para a gente, foi muito emocionante. Hoje o professor está mais tranquilo porque apesar da perseguição e da sensação de haver uma pressão muito grande em cima dele, a gente está conseguindo preservá-lo, porque ele não pode ficar marcado por um episódio de homofobia, enquanto quem cometeu o crime (de homofobia) fica sem pagar”, afirma.

Inadequado?

Amigos e colegas de profissão do professor também falaram ao UOL sobre o caso. Segundo o professor Maicon Saviato Medeiros, que leciona na Escola Municipal Pascoal Meller, o vídeo exibido pelo colega estava relacionado ao conteúdo que era trabalhado durante aquela semana em todas as turmas do 9º ano, que contemplam alunos com idades entre 14 e 15 anos.

Naquela data, o plano unificado para as aulas de arte contemplava artes integradas e visuais, bem como seus contextos e práticas, materialidades, processos de criação, hibridismo de linguagens visual e verbal na criação artística, intervenção artística e instalação performática.

“Ele exibiu um vídeo relacionado ao conteúdo que estava trabalhando. Um estudante não gostou e falou com o pai, que encaminhou a uma advogada bolsonarista. Ela fez o vídeo expondo a escola e dizendo que aquele conteúdo não era certo (de ser ministrado aos alunos)”, relata.

“O professor está com muito medo, assustado, abalado, pensa em se mudar. Ele também nos disse que pediu demissão, mas o prefeito fez essa live anunciando a demissão dele, dizendo não tolerar “viadagem” nas escolas”, afirma.

Amigo do professor exonerado há mais de dez anos, um artista visual, que preferiu não se identificar por medo de represálias, conta que a paixão do amigo pela arte começou cedo e o tornou uma figura importante além das salas de aulas, mas para o fomento da arte em Criciúma. “Este era apenas um conteúdo de uma aula e o professor é capacitado para ministrá-la e dar todo um contexto da temática apresentada. Não posso falar por ele, mas uma das coisas que aprendemos na arte e no ensino é essa contextualização. Encher o aluno de repertório para que ele possa construir as suas expressões culturais das mais variadas formas”, explica.

O artista reforça ainda que esse não foi o único material exibido. “Foram apresentados outros vídeos na escola que não tinham aquela temática, que tinham outras temáticas de manifestar a questão das diferenças, das desigualdades, então foi feito um recorte de um momento que durou 3 minutos para essa repercussão toda

Em conversa reservada com amigos, advogados e entidades locais, o professor demonstra mais tranquilidade. Em contato com o UOL, ele manteve a decisão de não se identificar e informou que deve se reunir com advogados no início da próxima semana, quando definirá como prosseguir em relação ao caso.

“Ele está com bastante preocupação devido à homofobia presente na nossa sociedade, porque é uma pessoa de muito amor, e quem o conhece sabe o quanto o amor faz parte da essência dele. A gente não deve amar somente aquilo que é igual a nós, mas também abraçar o que é diferente, essa é a premissa do amor”, conclui um dos amigos do professor.

OAB/SC repudia falas homofóbicas

Por meio de nota oficial, a OAB/SC, através da Comissão Comissão de Direito Homoafetivo e Gênero e a Comissão de Direitos Humanos da Subseção de Criciúma, declarou sua posição de combate à homofobia para a construção de uma sociedade livre de preconceitos, independentemente da orientação sexual e da identidade de gênero.

A entidade lembrou os recentes avanços na luta pelos direitos da população LGBTQIA+ em recente decisão do Supremo Tribunal Federal, que passou a criminalizar condutas homofóbicas e transfóbicas, equiparando-as às práticas descritas na Lei n.º 7.716/89 (relacionada aos crimes de racismo).

“Discursos de ódio em razão da raça ou de gênero devem ser repelidos e condenados, pois é um crime contra toda a sociedade e ofende diretamente os valores do Estado Democrático de Direito”, pontuou. 

 

 

*uol


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