Brasil

Revista NORDESTE aborda a formação científica, cultural e artística brasileira no bicentenário da Independência

No contexto das celebrações do Bicentenário da Independência política brasileira, a edição 182 da Revista NORDESTE apresenta texto narrativo com destaque para aspectos relevantes e pouco conhecidos de formação científica, cultural e artística brasileira.  A resenha crítica é assinada pelo professor Marcos Formiga, graduado e pós-graduado em Economia, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPe) e em Políticas de Ciência e Tecnologia, pela Universidade de Londres.

O texto pode ser lido, na íntegra, na versão virtual da Revista NORDESTE.

Clique aqui no link, e acesse na íntegra.

(Foto: Reprodução Revista NORDESTE)

Você também poderá ler a entrevista na íntegra, abaixo. Confira:

O Brasil visto de fora – Grandiosidade, Ciência e Cultura

Por Marcos Formiga

No contexto das celebrações do Bicentenário da Independência política brasileira, trata-se de um texto narrativo em duas partes que pretende destacar aspectos relevantes e pouco conhecidos de nossa formação científica, cultural e artística, iniciando-se por um sumário da epifania de um novo e desconhecido País em construção.

Na primeira parte apresentamos uma breve análise do Brasil utilizando-se de um arco descritivo histórico, a partir da interpretação de visitantes europeus ilustres que observam, coletam espécies vegetais, minerais e animais, escrevem, pintam, esculpem, narram e produzem obras resultantes de suas experiências singulares de visitantes temporários, aos quais o País se revela como um inesgotável “gigantesco laboratório a céu aberto”.

A segunda mostra o Brasil visto de dentro por seus primeiros cientistas natos que deram sequência às pesquisas sobre sua pujante Natureza e a permanente construção de uma civilização genuína nos trópicos brasileiros.

CIÊNCIA, CULTURA E ARTE NO BRASIL: UM BREVE PERCURSO HISTÓRICO DO SÉCULO XVI AO SÉCULO XX

No século XVI, uma primeira visão idílica no mundo europeu da exuberância, mistério e grandiosidade do Brasil, além dos documentos secretos portugueses sobre a nova colônia mantidos em sigilo pela cobiça das potências europeias, pode ser atribuída à “festa brasileira”, realizada em 1º de outubro de 1550, na cidade francesa de Rouen. Nela, exibiram-se ao rei francês Henrique II, sua esposa a rainha Catarina de Medicis e convidados, 50 nativos indígenas do Brasil, incluindo tabajaras e potiguares, como relata o livro “Uma Festa Brasileira”, de Ferdinand Denis, publicado na França em 1850.

Quanto aos caminhos da Ciência e Cultura no Brasil, seus primórdios estão vinculados às missões naturalistas, artísticas e científicas europeias, a seguir brevemente selecionadas e descritas em ordem cronológica ascendente.

No século XVII chegam ao Nordeste brasileiro os flamengos, em seu auge liderados por Mauricio de Nassau “Príncipe humanista do Novo Mundo” representante da poderosa corporação mercantil Companhia das Índias Ocidentais r governador da província de Pernambuco, de 1637 a 1644. Protestante, tolerante religioso e gestor de mente aberta, Nassau incentivava as artes e as ciências naturais, livres das excessivas superstições e amarras aos temas sacros e religiosos que caracterizavam o mundo ibérico católico. Assim, um século após o início do povoamento da colônia, organizou e realizou a primeira missão artística e científica que se tem registro (1637) . Trouxe os médicos Guillielmus Piso e Jacob Bontius, fundadores de nossa medicina colonial que, juntamente com o naturalista, geógrafo, meteorólogo e topógrafo alemão Georg Markgraf publicaram, em 1648, o livro “Historia naturalis Brasiliae ”.

Markgraf é responsável pelo primeiro observatório astronômico e meteorológico do Hemisfério Sul. Também integrava a missão o pintor, botânico e naturalista Albert Echkhout e os pintores Frans Post e Zacarias Wagener. O trabalho da missão em suas múltiplas vertentes em muito contribuiu para introduzir na Europa, a partir do Brasil, a representação natural, geográfica e científica do Novo Mundo e seu estilo de vida.

No século XVIII, no início de 1711, publica-se em Lisboa o livro Princípios de Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas de autoria do Padre André João Antonil, pseudônimo do jesuíta Toscano Giovanni Antonio Andreoni . Trata-se de um relato pormenorizado em 17 capítulos da inesgotável grandiosidade da natureza, potencial e vida econômica e produtiva do Brasil, focado nas minas de ouro e culturas do açúcar, tabaco e gado. Por decisão do rei D. João V, a obra foi confiscada e destruída em 20 de março de 1711 quatorze dias após a autorização de venda.

(Foto: Reprodução Revista NORDESTE)

No final do século XVIII, precisamente em junho de 1800, chega ao auge a nefasta política da matriz portuguesa de segregar o contato e impedir a residência e até a visita de estrangeiros na rica colônia brasileira. A metrópole proíbe, por meio de carta régia, a entrada na Amazônia brasileira do famoso naturalista, geógrafo, mineralogista, botânico, linguista e explorador prussiano Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt mais conhecido como barão Alexander Von Humboldt, considerado o pai da pesquisa científica na universidade e criador da geografia física. Assim, de 1799 a 1804, sua missão à Pan-Amazônia sul americana, exuberante bioma de floresta tropical que descrevia “espessa e intrincada: um inferno verde”, limitou-se à atual Colômbia e Venezuela.

No início do século XIX as potências continentais europeias estavam sob o domínio do imperador francês Napoleão Bonaparte, e quando Portugal é invadido, em novembro de 1807, a monarquia portuguesa é forçada a se transferir com toda corte para o Brasil, sua colônia mais importante. Esses acontecimentos políticos e militares no velho mundo produzem aqui, após dois séculos de esquecimento, o incipiente alvorecer das artes e das ciências, isolamento e proibições. A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 08 de março de 1808 é o marco inicial desse alvorecer científico, cultural e artístico.

Nesse ano, o príncipe regente do Brasil, D. João VI, cria, sem uma vinculação direta com a pesquisa acadêmica, os primeiros cursos superiores regulares (Direito em Olinda-Pernambuco e São Paulo, e a escola de cirurgia da Bahia que se tornaria a faculdade de Medicina de Salvador, e Rio de Janeiro). Em abril de 1808, o monarca suspende o alvará de 05 de janeiro de 1785, que proibia a criação e operação de indústrias e manufaturas no Brasil, permitindo a instalação de fábricas de ferro, pólvora, vidro, tabaco e colheita de algodão. A medida permitiu a instalação, em 1811, de duas fábricas de ferro em São Paulo e Minas Gerais.

Em 1810, publica-se em Londres em 3 volumes o livro History of Brazil de autoria de Robert Southey considerada a mais extensa obra histórica sobre o Brasil colonial .

Em 26 de março de 1816, chega ao Rio de Janeiro uma missão de artistas e artífices franceses. Liderada pelo professor e legislador Joachim Lebreton, revolucionou a teoria e a prática das belas-artes no país, introduzindo, em novembro de 1826, o ensino superior acadêmico com a criação da Academia Imperial. Apenas cinco integrantes do grupo original, foram efetivamente aproveitados pelo governo real brasileiro: Jean Baptiste Debret, Nicolas Taunay, Auguste Taunay, Auguste Montigny e François Ovide.

Em 15 de julho de 1817, chega ao Rio de Janeiro acompanhando a arquiduquesa austríaca Leopoldina, que viera ao Brasil para casar com o príncipe D. Pedro, uma expedição científica e artística austríaca-alemã liderada pelo naturalista e botânico Carl Friedrich Phillip Von Martius e pelo zoólogo Johann Baptist Von Spix. De dezembro de 1817 a outubro de 1820, percorrem mais de 10.000 km nas regiões Sudeste, Nordeste e Norte do Brasil coletando e catalogando espécies vegetais, animais e minerais brasileiros. Em março de 2019, a cidade de Santarém/PA celebrou 200 anos da passagem da célebre expedição, quando Von Martius quase faleceu afogado pela forte correnteza nas águas caudalosas dos rios Tapajós e Amazonas.

O resultado da fascinante missão, acrescido de componentes linguísticos indígenas, etnográficos e descritivos da viagem, foi publicado na Alemanha em três volumes com o título “Viagem pelo Brasil por von Spix e von Martius 1817 – 1820” , editados em 1823, 1828 e 1831 A icônica obra é acompanhada da publicação Flora brasiliensis, produzida de 1840 a 1906, em 15 volumes, divididos em 40 partes. Com 10.367 páginas, descreve e cataloga 22.767 espécies vegetais, 5.689 inéditas para a ciência da época, e contém 3.811 ilustrações e desenhos de plantas, suas flores, frutos e sementes do Brasil .

Em 1821, é publicado em Paris o livro “Viagem ao Brasil nos anos de 1815, 1816 e 1817”, de autoria do príncipe renano, etnólogo, naturalista e explorador Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwied .

Em 1824, em Londres, é publicado o livro “diário de viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos 1821, 1822 e 1823”, de autoria da inglesa Maria Graham, um minucioso relato feminino (raro na época) sobre a realidade social, econômica, geográfica e dos costumes brasileiros, em particular, seu ambiente social .

De 1824 a 1829, realiza-se a expedição Langsdorff chefiada pelo barão, médico alemão naturalizado russo, Georg Heinrich von Langsdorff, que percorreu, mais de dezesseis mil quilômetros pelo interior do Brasil, desbravando as regiões Centro-Oeste e Norte (Amazônia), registrando aspectos relevantes da natureza e da sociedade.

Em fevereiro de 1832, o biólogo e naturalista escocês Charles Darwin, então com 22 anos, visita o arquipélago de Fernando de Noronha, a Bahia e o Rio de Janeiro, e retorna em 1836, na volta da expedição ao redor da terra, no navio Beagle. Ao longo de 4 meses de permanência total no Brasil, único país visitado na ida e na volta da expedição, que se estendeu por cinco anos, Darwin fez registro diário de suas observações e coletou espécies da flora, fauna e minerais, tendo declarado, quando escreveu o livro a Origem das Espécies, que a experiência no Brasil moldou toda sua carreira. Aqui, relembra-se relatos do notável cientista a dois locais visitados: Bahia e Rio de Janeiro.

Sobre a Bahia, ou São Salvador: “o dia transcorreu delicia, no entanto, é termo insuficiente para dar conta das emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. A elegância da relva, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde vivo das ramagens e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral me encheram de admiração. Para uma pessoa apaixonada pela história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de prazer tão profunda que se tem a impressão de que jamais se poderá sentir algo assim outra vez. ”

Sobre o Rio de Janeiro: “durante o resto de minha permanência no Rio residi em uma quinta na Baia de Botafogo. Era possível se desejar coisa mais deliciosa do que passar assim algumas semanas em um país tão magnífico. Na Inglaterra, qualquer pessoa apaixonada por ciências naturais, sempre tem nos passeios alguma coisa que lhe atraia a atenção: mas, aqui, na fertilidade de um clima como este, são tantos atrativos que não se pode nem mesmo dar um passo sem lamentar a perda de uma novidade qualquer. ”

No século XIX, outro destaque de conceituado cientista estrangeiro no Brasil, refere-se ao naturalista, médico, botânico e zoólogo dinamarquês Peter Wilhelm Lund, considerado o pai da paleontologia no Brasil. Lund viveu 51 anos no Brasil – 1825 a 1829 e 1833 até a morte em 1880 – explorando, catalogando em coleções achados botânicos, zoológicos, paleontológicos, arqueológicos e geológicos das províncias de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás.

Em 1888, suas memórias e o estudo completo de sua coleção E Museo Lundii. foram publicados pelos curadores na Dinamarca. Em 1939, a editora instituto nacional do livro publicou uma edição em Português, intitulada Memórias sobre a Paleontologia Brasileira: Peter Wilhelm Lund no Brasil.

Problemas de Paleontologia Brasileira organizada por Anibal Mattos . A obra foi revista e comentada, em 1950, por Carlos de Paula Couto, com o título “Memórias sobre a Paleontologia Brasileira”, preservando, o pensamento e realizações científicas do pesquisador Dinamarquês.
Ainda no Século XIX, o cientista e zoólogo suíço Emílio Augusto Goeldi residiu e trabalhou no Brasil, tendo sido diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro de novembro de 1884 a maio de 1890. Em maio de 1894, transfere-se para Belém do Pará, para reorganizar o Museu Paraense, fundado em março de 1871. Dentre suas obras destacam-se “Os Mamíferos do Brasil” (1893) e o primeiro volume de “As Aves do Brasil” (1894) .

(Foto: Reprodução Revista NORDESTE)

No Século XX, em maio de 1916, é criada no Rio de Janeiro a Sociedade Brasileira de Ciências, convertida, em 1921, em Academia Brasileira de Ciências que recebeu em 07 de maio de 1925, a honrosa visita do físico alemão Albert Einstein, cientista de maior renome na primeira metade do século XX, então em viagem pela América do Sul. No Brasil, Einstein proferiu a palestra “Observações sobre a situação atual da Teoria da Luz”.

Após a publicação, em 1915, da teoria da relatividade geral a qual integra os efeitos da gravitação e a noção de espaço-tempo curvos, Einstein conquistou rápida fama, reforçada, em 1919, pelo anúncio à comunidade científica mundial dos resultados da expedição de eclipses em Sobral, no Ceará, Nordeste brasileiro, confirmando suas previsões sobre a deflexão da luz das estrelas ao se aproximar do Sol. Em 2019, celebrou-se o centenário dessas observações decisivas para as teorias gravitacionais e fotoelétricas Einsteinianas que o levaram a conquistar, o prêmio Nobel de Física de 1921, tornando-se o primeiro cientista com esta premiação a visitar o Brasil .

Entre 1941 e 1942, destaca-se a residência em Petrópolis, Rio de Janeiro, do consagrado escritor, historiador, poeta, romancista e biógrafo judeu austríaco Stefan Zweig que fugia dos horrores da Europa promovidos pela Alemanha nazista, autor do famoso livro “Brasil: Um país do futuro” publicado em outubro de 1941 . Trata-se de um livro ufanista com visão eurocentrista que aborda historicamente uma narrativa do desenvolvimento econômico e civilizatório de três regiões geográficas brasileiras (Sudeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais), Nordeste (Bahia e Pernambuco) e Norte (Belém do Pará), exortando uma grandiosidade, abundância, contrastes e beleza do País sintetizada na ideia de “uma forma genuína brasileira de harmonizar os contrastes como uma solução para o mundo sem guerras”. Criticado pela intelectualidade brasileira da época que associou o livro a um alinhamento político do autor com a ditadura Vargas, o livro seguiu nas décadas seguintes citado como um dos mais importantes instrumentos de divulgação do Brasil, seu potencial e cultura no exterior.

Para concluirmos esta primeira parte, destacamos a publicação de um livro publicado em 1941, por Cândido de Mello Leitão “História das Expedições Científicas no Brasil”, relatando as expedições científicas organizadas no Brasil desde o século XV. A obra foi um dos temas explorados no Congresso de História do Brasil realizado em outubro de 1938 no Rio de Janeiro, e apresenta, o descobrimento, o conhecimento da geografia física, e estudos de fixação dos limites territoriais, do solo e riquezas minerais, a classificação da nossa flora e fauna, e as condições sociais dos nossos íncolas .

*Marcos Formiga é graduado e pós-graduado em Economia (UFPe) e em Políticas de Ciência e Tecnologia (Universidade de Londres).

 


Os comentários a seguir são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Recomendamos pra você


Receba Notícias no WhatsApp