Nordeste

Revista NORDESTE apresenta análise sobre as eleições na pandemia diante de novo timing ideológico com a direita tentando se impor diante da esquerda

27/10/2020


Prof. Dr. Túlio Velho Barreto, da Fundaj: "A política perdeu a cena para a crise sanitária"

Revista NORDESTE

A edição de Nº 165 da Revista NORDESTE apresenta uma cobertura completa sobre as eleições municipais nas nove capitais nordestinas. O periódico ainda traz análise sobre o processo eleitoral em pleno período de pandemia. Para isso, fomos ouvir um expert e conhecedor da conjuntura sócio-político-econômica da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Túlio Velho Barreto, sobre o tema.

A matéria está imperdível. Confira abaixo na íntegra:

Reprodução Revista NORDESTE, nº 165

AS ELEIÇÕES DA PANDEMIA

2020 atrai valores diferentes com novo timing da ideologia de ultra direita buscando se impor diante da Esquerda combalida.

No final de setembro foi deflagrada mais uma temporada oficial de caça aos votos, com 19.166 pedidos de candidaturas a prefeito e 514.764 a vereador em todo o Brasil, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas esta será uma eleição atípica, singular, e por motivos sem precedentes. Este ano eleitoral é também o ano da pandemia mundial da Covid-19 com consequências significativas em tudo que tínhamos planejado, alterando, inclusive, as eleições municipais. Para refletir, analisar e projetar a cena política de 2020, fomos procurar um expert e conhecedor da conjuntura sócio-político-econômica da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Túlio Velho Barreto.

A política perdeu a cena para a crise sanitária e todo o processo eleitoral foi retardado pelo clima de incerteza até mesmo nas datas do pleito. As convenções, propagandas e até a postura dos políticos como pré-candidatos ou candidatos foram empurradas para frente até que TSE mudou todo o calendário remarcando o primeiro e o segundo turnos para 15 e 29 de novembro.

“Num ano eleitoral o que prevaleceu foi a crise sanitária e não a política. Toda a mídia e os governos estaduais e municipais se voltaram para a pandemia”, observa o cientista político e pesquisador Túlio Velho Barreto.

CENÁRIO PÓS-PANDEMIA

Nas eleições de 2020, os candidatos do grupo de risco não podem se locomover e ter acesso aos eleitores, perdendo a oportunidade de fazer o corpo a corpo visitando famílias, comunidades, distribuindo abraços e colocando crianças no colo.

“O novo coronavírus é algo que foge ao controle dos políticos mas os que estão disputando a reeleição deveriam ter maior controle e mostrar mais atenção às recomendações da Organização Mundial da Saúde e do  Ministério da Saúde. Vereadores e prefeitos, e os que almejam os cargos, devem ter uma atitude mais cuidadosa, mais preocupada com as pessoas do que com a eleição”, recomenda Barreto.

A exposição do início de campanha tirou de cena dois candidatos a prefeito de São Luís, no Maranhão. Diagnosticado com a Covid-19, no final de setembro, o ex-juiz federal Carlos Madeira, do Solidariedade, oficializou sua candidatura por videoconferência e, no último dia 7, retirou-se do páreo alegando sequelas da doença.

Dois dias antes, o concorrente Rubens Pereira Jr. (PCdoB) também testou positivo e se afastou da campanha. No mesmo dia 5 de outubro, o candidato à prefeitura de Fortaleza José Sarto (PDT) anunciou sua contaminação pelo novo coronavírus e foi afastado para recuperação.

Nem o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), escapou da Covid-19, confirmando o diagnóstico no dia 7 passado. Apoiador de uma união entre o PDT dos irmãos Ciro e Cid Gomes e o PT, o governador estava numa saia justa, evitando apoios declarados, para não contrariar a candidatura do seu partido que resolveu lançar a ex-prefeita Luizianne Lins.

Com a necessária quarentena os dois políticos cearenses deixam nas mãos das lideranças partidárias a condução das campanhas.

TV, RÁDIO E MÍDIAS DIGITAIS

A necessidade do distanciamento social para se evitar repiques da Covid-19, já praticamente estabilizada em todo o país, pode trazer mais importância à  propaganda eleitoral na TV e no rádio do que nas últimas eleições onde o marketing digital ganhou mais fôlego e presença entre os eleitores.

“Por outro lado perdemos os debates nas TVs no primeiro turno porque, temendo  aglomerações nos estúdios devido ao alto número de candidatos, as emissoras preferiram evitar os riscos de contaminação deixando a possibilidade dos enfrentamentos para o segundo turno”, explica Túlio Velho Barreto.

Temos então um cenário ainda mais propício para a propaganda nas redes sociais do que nas eleições de 2018, apesar da nova lei que pune abusos e a disseminação de fakes news.

“Já era de se esperar o avanço das redes sociais e com menos chances do corpo a corpo a internet amplia seu protagonismo”, diz o cientista político, destacando que a expansão continua sem seguir as regras devido às dificuldades de fiscalização, seja porque os órgãos fiscalizadores não estão preparados ou porque fazem vista grossa.

POLARIZAÇÃO E NOVOS PERFIS

Embora não perceba uma clara polarização entre esquerda e direita nestas eleições como ocorreu há dois anos, Túlio Velho Barreto confirma a onda conservadora que desaguou na eleição do presidente Jair Bolsonaro e hoje repercute em muitos candidatos que se declaram de direita.

“Antes só tínhamos os de centro, no máximo centro-direita, e  os liberais para se definir quem era anti-esquerda. Agora temos alguns com discurso reacionário e até de extrema direita”, observa.

Segundo ele, essa eleição será um termômetro para se saber até onde essa onda vinga, sobretudo nas capitais e cidades das regiões metropolitanas, se vai haver um avanço de eleitos de direita, conservadores, ou de esquerda, progressistas.

“Se em 2020 aumentar a eleição de progressistas, não se estabeleceu a onda conservadora, foi um fato episódico e não uma onda”, explica, não descartando a eleição de candidatos outsiders, mais jovens, de fora da política tradicional que vencerão em cima do desgaste da figura política diante dos escândalos revelados pela mídia.

O conservadorismo se reflete ainda no aumento de candidaturas de policiais civis e militares e nos  eleitores querendo estes candidatos. No Recife, por exemplo, disputam a prefeitura o  Coronel Feitosa e a Delegada Patrícia que fazem questão de usar os cargos públicos diante dos seus nomes nas urnas e marcar posição nesta tendência que se alinha com o bolsonarismo e seu séquito de militares no governo.

Por falar em nomes, ainda no Recife, a candidata do PT, Marília Arraes, preferiu omitir o sobrenome do avô, Miguel Arraes, assinando as peças publicitárias apenas como Marília, sem a estrela do partido e evitando a característica indumentária vermelha dos petistas. Com isso vem causando desconforto na sigla mas segue no intuito de atrair eleitores de outros partidos e os indecisos.

Disputando a liderança das pesquisas com o candidato da situação, o deputado federal João Campos, filho do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, ela pode estar acertando na estratégia e cumprir a missão consagrada pelo ex-presidente Lula de garantir pelo menos uma capital para o PT. Porém, esta nova roupagem da petista já provoca comentários de que ela está se alinhando ao ideário bolsonarista, defendendo até que a guarda municipal passe a usar armas.

EFEITO DO AUXÍLIO EMERGENCIAL

Segundo Túlio Velho Barreto, havia uma expectativa de que as eleições de 2020 seriam plebiscitárias, com resultados que selariam o apoio ou a reprovação do governo Jair Bolsonaro. Mas com a pandemia e a distribuição do auxílio emergencial – aprovado e bancado pelo Congresso Nacional em R$ 600,00 e R$ 1.200,00, a contragosto do presidente – criou-se uma variável imprevista.

“O auxílio terminou ajudando o governo federal e seus candidatos aliados, sobretudo em regiões mais dependentes de recursos públicos, como o Nordeste. Até quem não era eleitor de Bolsonaro pode estar mudando de opinião e decidirá seu voto mais pelo aspecto econômico e a questão pragmática de que o auxílio é a forma de se colocar comida em casa”, diz o cientista político.


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