Brasil

Revista NORDESTE: Chefes de facções no RN são transferidos para fora

Ofensiva nos presídios

Ataques coordenados por facção criminosa causam caos no RN; estado tem dificuldade para conter ações criminosas e fica dependente de tropas federais

Por Jhonattan Rodrigues

No dia 28 de junho, foram instalados na Prisão Estadual de Parnamirim (PEP), região metropolitana de Natal, Rio Grande do Norte, dois bloqueadores de sinal de celular. O moderno aparato, o primeiro a ser aplicado em prisões potiguares, custou R$ 174 mil à Secretaria de Justiça e da Cidadania (Sejuc). A intenção era coibir a ação de penitenciários que, mesmo em cárcere, mantinham contato com o mundo do crime via celular. Entretanto, aquelas duas antenas desencadeariam uma onda de violência que colocaram Natal e outras cidades do interior praticamente em situação de guerra civil.

Até o fechamento desta edição ataques em 42 cidades haviam sido registrados pela Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio Grande do Norte (Sesed) e 112 pessoas presas suspeitas por envolvimento nos crimes.

O início

“A partir do momento em que a Secretaria de Interior e Justiça, expôs que ia colocar bloqueadores em uma unidade localizada em Parnamirim, presos procuraram não acatar essa decisão, demandando pessoas que estavam em liberdade a cometer esses crimes, através de incêndios, depredação contra propriedades, móveis e imóveis, tanto públicos quanto particulares, na capital e interior do estado”, conta Lenivaldo Pimentel, diretor adjunto da Diretoria de Polícia do Interior (DPCIN).

Ironicamente, os primeiros a fotografarem e compartilharem nas redes sociais as antenas ainda em instalação foram os próprios presidiários. Logo após a instalação do aparato, áudios supostamente de presidiários ameaçando rebeliões circularam pelas redes sociais, colocando as autoridades em alerta. Um memorando foi enviado para diversos diretores de penitenciárias públicas em tom de urgência, pedindo destes “maior atenção às suas unidades” e alertando: “as equipes de Agentes Penitenciários deverão ficar de sobreaviso para possível acionamento”. Em um dos áudios, um presidiário alertava a uma pessoa a não sair de casa após as 18h, pois haveria “uma guerra aí no Rio Grande do Norte, viu? Tão botando um bloqueador aqui na cadeia, e vai ser dada uma resposta aí pro estado” (SIC).

No dia 29 de agosto a primeira onda de ataques aconteceu em Natal, Parnamirim, Macaíba, Florândia, Caicó, Currais Novos, Monte Alegre e São José de Mipibu, com a queima de transportes públicos. No dia 31, o presidente em exercício, Michel Temer (PMDB), autorizou o envio de uma força de 1200 militares para reforçar o combate aos criminosos, atendendo a uma solicitação feita pelo governador Robson Faria (PSD). Até então já haviam sido registrados 90 ataques em 31 cidades no estado. “Existe aqui no estado uma facção que se intitula Sindicato do RN. No primeiro momento ela age de forma independente, e houve também uma revolta que, quando foram instalados os bloqueadores eles tentaram danificá-los, e por causa disso houveram transferências de presos, de líderes, para presídios federais. Antes disso já haviam ocorrido transferências. Esse foi apenas um dos atos deles, onde eles tentaram danificar o material que foi colocado em pleno funcionamento”, explica Pimentel.

Reforço

Militares do exército, marinha e aeronáutica chegaram em Natal no dia 3 de agosto, vindos da Paraíba e Pernambuco, dando início à Operação Potiguar. A operação deveria durar até o dia 16, mas durante solenidade feita para anunciar a chegada das tropas, que contou com a presença do Ministro da Defesa Raul Jungmann, Robson Faria fez um apelo para que este prazo se prolongasse. O pedido do governador era para que a tropa permanecesse até que o governo estadual concluísse a instalação de outros bloqueadores nos presídios, o que, segundo o governante, levaria cerca de 2 meses. O pedido foi atendido, mas apenas parcialmente: a operação findou no dia 23. Durante estes 21 dias que lá permaneceram, em conjunto com a Polícia Civil e a Polícia Militar, sob coordenação do secretário de Segurança Pública e Defesa Pública do estado, Ronaldo Lundgren, as tropas federais reforçaram o patrulhamento das ruas, escoltando corredores e paradas de ônibus e fazendo vigilância em pontos turísticos. Como resultado, tanto os ataques à transportes e imóveis diminuíram, como crimes comuns como assaltos, roubos de carros e até as famosas ‘saidinhas de banco’ diminuíram. A população ficou desejosa de uma prolongação das forças na cidade.

No dia 23, o governador se reuniu com o ministro da Justiça, Alexandre Moraes, para pedir auxílio da Força Nacional.

Desdobramentos

No início do mês de agosto 5 detentos do presídio de Parnamirim foram identificados como mentores da facção criminosa por trás dos ataques. São eles: Edson Cardoso Bezerra (Gato), Anderson Mendonça da Silva (Sancinho), Cosme Wendel Rodrigues Gomes (Cego), Alex Barros de Medeiros e Marcos Paulo Ferreira (Cabeça do Acre) – este último, autor do áudio que corria pelas redes sociais e que deixou as autoridades penitenciárias em alerta. Todos os 5 foram transferidos na segunda-feira (1ª), para a penitenciária Federal de Mossoró.

No dia 06, outros 21 detentos apontados como chefes da facção foram colocados a bordo de um avião e transferidos para prisões federais em Catanduvas (PR), Campo Grande (MS) e Porto Velho (RO).

Situação geral

A instalação dos bloqueadores de celulares é um desdobramento da tentativa estadual de conter a ação dos criminosos, que continuam a causar danos mesmo em cárcere. Em 2015, forças especiais do estado tiveram de agir para retomar o controle dos presídios de Raimundo Nonato, em Natal, e Alcaçuz, em Nísia Floresta. Uma rebelião começou em Alcaçuz após a descoberta de dois túneis de fuga, e se desdobrou para Raimundo Nonato. Os presos atearam fogo nas celas e depredaram a prisão. Em março o governo potiguar já havia decretado estado de calamidade, sendo forçado a chamar a força nacional para conter uma série de rebeliões que tomou 14 presídios e causou prejuízos que chegaram à soma de 7 milhões. Até a metade de 2016, haviam sido registrado 274 casos de fugas em prisões no estado. 


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