Nordeste

Revista NORDESTE: produtor revela detalhes do documentário especial ‘Toada para José Siqueira’, que traz relatos sobre vida do maestro paraibano fundador da OSB

24/09/2020


Maestro José Siqueira (Arquivo)

A nova Revista NORDESTE já está disponível nas bancas, e para leitura no modelo virtual. A edição de nº 164 trata sobre a história do Maestro José Siqueira, paraibano responsável pela fundação da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), em 1940.

Em reportagem especial, pela primeira vez, são publicados dados sobre a produção de um filme documentário sobre José Siqueira, coordenada pelo cineasta Rodrigo T. Marques, sobrinho do maestro, pontuando dados históricos do músico paraibano, que é natural do município de Conceição do Piancó, terra de Elba Ramalho e Pinto do Acordeon. A obra será lançada em 2021.

A edição virtual da Revista NORDESTE está disponível para o leitor no Portal da Revista (www.revistanordeste.com.br) – (CLIQUE para acessar a Revista).

Leia a matéria sobre o documentário na íntegra:

Em depoimento exclusivo, produtor anuncia Documentário “Toada para José Siqueira”, a ser lançado em 2021

Por Rodrigo T. Marques

Em maio do ano 2.000, recebi de presente da minha avó, Aury Siqueira, um livro antigo de um autor que eu não conhecia. Seu nome era Joaquim Ribeiro, tinha aproximadamente 200 páginas e, na capa do livro, estava escrito José Siqueira, o artista e o líder.

À primeira vista não sabia exatamente do que se tratava, mas que falava da vida do irmão da minha avó e que ele tinha sido um músico no passado.

Iniciei a leitura e me deparei com uma história riquíssima que apresentava de forma magistral a trajetória de vida de meu tio avô, até então um desconhecido para mim. O autor narrava as andanças de Siqueira pelo sertão paraibano, onde nasceu, guiado pela música que o tinha acompanhado durante toda a sua vida desde o Cordão Encarnado, banda de música chefiada por seu pai, João Baptista de Siqueira Cavalcanti, que o introduziu aos mais diferentes instrumentos.

Siqueira, com seu trompete, passou por diversos vilarejos sertanejos onde fundou bandas até romper as fronteiras de sua origem nordestina e seguir para o Rio de Janeiro, na época ainda capital do país.

Lá se formou em Composição e Regência no Instituto Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tornando-se professor catedrático da mesma instituição.

Aquela história revelara para mim um dos maestros e compositores mais importantes que o país já teve, mostrando as andanças de Siqueira pelo mundo regendo orquestras e levando consigo suas composições, que chegam a mais de 500 peças.

Além de difundir a música brasileira pelos quatro cantos do mundo, ele também se mostrou um líder da classe musical, fundando grandes orquestras no país e lutando pelos direitos dos músicos brasileiros.

Após terminar minha leitura, comecei uma pesquisa profunda sobre a vida desse ilustre maestro e compositor que, como muitos outros nomes da música brasileira, seguia esquecida e merecia ser resgatada.

Nessa época eu estava me formando em Comunicação Social na PUC de São Paulo e peguei emprestado da faculdade uma câmera Super VHS e um gravador de som, pois estava decidido a conhecer as raízes mais profundas da minha família.

Em julho de 2000, fiz uma viagem para a cidade natal de Siqueira, Conceição do Piancó (hoje só Conceição), no alto sertão da Paraíba. Lá teve início o processo, mesmo que ainda embrionário, de pesquisa de um possível filme sobre a
vida e a obra desse grande maestro e compositor da música brasileira.

Chegando em João Pessoa encontrei Vera Teixeira, minha prima, que havia morado um tempo no Rio de Janeiro e com quem tive contato na casa de minha avó. Ela me levou para conhecer seu irmão, o ator, diretor e dramaturgo paraibano Fernando Teixeira, e logo de cara disse para ele que queria conhecer o sertão e visitar Conceição.

Foi então que Fernando me disse que também tinha nascido em Conceição e que fazia 15 anos que ele não colocava os pés naquelas terras. Se animou em me levar até lá.

Pegamos a estrada, eu, Fernando e Fabíola Morais, atriz e companheira de Fernando. Fomos parando de cidade em cidade, e à medida em que nos distanciávamos da capital, a paisagem ia mudando completamente.

Começavam a surgir no horizonte montanhas de pedra e a vegetação se transformava rapidamente. Passadas 10 horas desde nossa saída de João Pessoa, chegamos em Conceição e nos hospedamos no Hotel JK.

DEPOIS DO PRIMEIRO CONTATO

Fernando e Fabíola passaram o fim de semana e voltaram para João Pessoa. Por lá fiquei, sozinho, e comecei a minha pesquisa em busca de rastros do maestro em sua cidade natal.

Eu sabia que Siqueira tinha participado da banda do Cordão Encarnado e fui até a Igreja Matriz da cidade para conversar com o padre, José de Souza, que me contou sobre os pastoris e como eram as festas tradicionais na cidade.

Ele me disse que em Bonito de Santa Fé ainda havia um mestre de banda chamado Capitão José de Sousa Neves e que ele poderia me contar algumas histórias dos tempos das bandas de música do sertão.

No dia seguinte fui até a rodoviária, ao lado do hotel JK, e peguei um ônibus até Bonito de Santa Fé. Chegando lá, busquei pelo Capitão e me indicaram o endereço de sua casa. O Capitão me recebeu com um café e rapadura e logo contei a ele o motivo de minha visita.

Buscava histórias sobre o maestro José Siqueira e, para minha surpresa, o capitão conhecia Siqueira e havia estudado seus livros de música para a juventude. Buscou os livros para me mostrar e disse que Siqueira era sua grande referência musical, principalmente como professor. Me contou que Siqueira havia saído de Conceição muito jovem, ainda com 15 anos, e que tinha seguido para Bonito de Santa Fé para fundar a banda, em 1922.

Ele me disse ter guardado em sua memória a primeira música feita em Bonito, de autoria de José Siqueira, chamada Dobrado José Arruda e no ato começou a transcrevê-la para a partitura.

Eu estava com minha câmera super VHS em mãos e documentei esse momento único do encontro com o mestre da banda de Bonito. Disse a ele que gostaria de conhecer a banda de música e ver os jovens tocando.

Em seguida fomos a uma pequena casa onde nos encontramos com os jovens, todos uniformizados com a roupa da Banda Filarmônica Capitão José de Sousa Neves, onde tocaram o Dobrado José Arruda e um maxixe, também composto por Siqueira, chamado Meu Sertão.

Filmei aquele momento sem acreditar que havia encontrado um rastro de Siqueira no sertão e que sua música e ensinamentos seguiam vivos naquela banda de Bonito de Santa Fé.

Me despedi do Capitão e voltei para Conceição. Precisava voltar a João Pessoa no outro dia e aquele encontro tinha sido muito valioso e me sentia realizado por tudo o que tinha testemunhado nos 10 dias que passei no sertão paraibano.

Durante minha passagem por João Pessoa, fiz um encontro muito rico com o musicólogo Domingos de Azevedo Ribeiro, que conheceu Siqueira e me contou muitas histórias sobre suas pesquisas musicais em Areia, falou de seus livros sobre as cantigas de cego, além da Nau Catarineta e outras manifestações folclóricas do nordeste brasileiro.

Antes de voltar para São Paulo, fiz um encontro com o poeta, repentista e cantador Oliveira de Panelas, que cantou seus versos e improvisou em um martelo a galopado uma bela cantoria sobre o maestro José Siqueira.

Obviamente, também documentei em vídeo. Depois dessa viagem, toda vez que encontrava minha avó Aury, no Rio de Janeiro, dizia que meu sonho era conseguir filmar a história de seu irmão para que ela pudesse assistir nas telas de cinema do Rio, de preferência em um cinema de rua, dos poucos que ainda restavam na cidade maravilhosa.

Infelizmente minha querida avó, que havia me presenteado com o livro de seu irmão, nos deixou aos 94 anos e o sonho de levá-la ao cinema para assistir ao filme sobre seu irmão não se realizou a tempo.

ENFIM, A PROFISSIONALIZAÇÃO

Em 2006, montei minha produtora com um amigo antigo e parceiro de trabalho, Eduardo Consonni, e começamos a realizar documentários que começavam a rodar os principais festivais de cinema do Brasil e do mundo. Fizemos alguns curtas até que, em 2015, produzimos nosso primeiro longa-metragem e conquistávamos uma maturidade que nos permitiria realizar o filme sobre José Siqueira.

Em 2016, lançamos outro longa-metragem documentário sobre o músico paraibano Pedro Osmar e os laços com a Paraíba voltaram a se estreitar. Em seguida, um novo longa-metragem, em 2017, sobre a luta dos estudantes secundaristas em São Paulo, chamado Escolas em luta.

A partir daí iniciamos um processo de desenvolvimento mais robusto do projeto do filme sobre Siqueira. Com uma experiência de mais de uma década produzindo nossos documentários, chegara a hora de produzir um filme à altura do maestro e que estava guardado em minha gaveta há quase 20 anos.

Conseguimos finalmente aprovar o projeto na Ancine (Agência Nacional de Cinema), em um edital de fluxo contínuo junto ao Canal CineBrasilTV e, antes que as garras dos golpistas temerosos pusessem as mãos nas políticas culturais, desmontando tudo o que vinha funcionando e transformando nosso cinema que viajava pelos quatro cantos do mundo em um cenário de terra arrasada, felizmente conseguimos ter acesso aos recursos e iniciamos a pesquisa do filme no Rio de Janeiro, na Paraíba e em Pernambuco entre março e abril de 2019.

DE VOLTA À ORIGEM

Voltei ao sertão da Paraíba depois de 19 anos, desta vez acompanhado do meu parceiro e também diretor do filme, Eduardo Consonni, e da pesquisadora, pianista e professora, Josélia Vieira, para começar um recorrido que passou por João Pessoa, Patos, Princesa, Conceição, Triunfo (Pernambuco), Mata Grande, Bonito de Santa Fé, Cajazeiras e Pombal.

A pesquisa de campo envolveu o resgate das partituras de Siqueira no início de sua trajetória musical ainda nos tempos das bandas de música, o verdadeiro conservatório dos músicos brasileiros.

Com as filmagens que eu já tinha feito com o capitão José Neves em Bonito de Santa Fé, há 19 anos, ao som do dobrado e do maxixe de Siqueira, encontrei outro mestre na cidade, chamado Jansen, que mantinha a banda em atividade com mais de 50 músicos, apesar das dificuldades.

Jansen e a banda se propuseram a tocar as duas peças de Siqueira que o capitão havia preservado. Em Conceição, junto ao mestre Zé Franco da Banda Filarmônica Municipal “Zeca Ramalho” (nome dado em homenagem ao padrinho de Siqueira, que era na época o mestre da Banda do Cordão Azul), localizamos duas partituras no banco de partituras da Polícia Militar em João Pessoa de autoria do maestro, na época conhecido ainda como Juca Siqueira.

Esse trabalho foi feito por Zé Franco e as partituras localizadas pela professora Amarilis Rebuá, em colaboração com a professora Josélia Vieira. Em Princesa tivemos contato com historiadores locais que nos mostraram as histórias do tempo do Coronel José Pereira e por onde Siqueira também passou e fez parte da banda de música da cidade.

No caminho de volta a João Pessoa, visitamos Pombal e, em contato com Luizinho Barbosa, organizamos nosso retorno para documentar as manifestações folclóricas da região.

De volta à capital da Paraíba, em parceria com a FUNESC e sua presidente Nézia Gomes, preparamos, junto ao Maestro Durier, as obras que seriam documentadas para o filme com interpretação da Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba.

Uma parceria especial se firmou também com o excepcional projeto de educação musical realizado pelo Governo do Estado da Paraíba, o PRIMA, com o apoio de Lau Siqueira e Rainere Travassos. Junto a toda sua equipe, planejamos nossa volta ao sertão para documentar o processo de formação de jovens musicistas paraibanos.

O TEATRO DA APRESENTAÇÃO

Além disso, visitamos também o Teatro Santa Roza que seria palco de uma apresentação de uma das obras de Siqueira no filme.

De volta ao Sudeste, rumamos ao Rio de Janeiro, onde nossa equipe de pesquisa, chefiada pela historiadora e pesquisadora audiovisual Eloá Chouzal, vasculhava os acervos do IPHAN, Biblioteca Nacional, Funarte e outros em busca de novos rastros de Siqueira.

Novas e importantes parcerias foram firmadas junto à Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, local em que Siqueira se formou e foi professor, e onde hoje se encontra depositado seu acervo pessoal.

Acervo esse que foi essencial para podermos construir muito da trajetória de Siqueira quando regeu concertos pelo Brasil e pelo mundo. Dentro dele encontramos grande parte de sua discografia, além de documentos, fitas de áudio e filmes, que com o apoio da Cinemateca Brasileira do Museu de Arte Moderna de Rio de Janeiro e de seu diretor Hernani Heffner, foram restaurados e posteriormente digitalizados para serem incorporados ao filme e posteriormente disponibilizados para futuras pesquisas na Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ.

Ainda no Rio, tivemos contato com o vice-presidente da Academia Brasileira de Música, professor da Escola de Música e regente, André Cardoso, que conduzia junto à ABM o processo de digitalização e editoração da obra completa de Siqueira a partir de suas partituras manuscritas, trabalho de imensurável valor e que colocará Siqueira de volta às estantes das grandes orquestras brasileiras para ser tocado novamente.

A partir desse envolvimento com a Escola de Música e seus professores, e por conta da realização do filme, conseguimos articular que fosse feita uma homenagem ao maestro e compositor José Siqueira na semana de aniversário de 171 anos da Escola de Música da UFRJ.

Com isso, fechávamos com chave de ouro todas as possibilidades de documentar uma parte da obra de Siqueira sendo interpretadas na Paraíba, pela Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba, pelo Quinteto da Paraíba e pelo PRIMA e,no Rio de Janeiro, pela Orquestra Sinfônica da UFRJ com regência do maestro Thiago Santos.

Passados 20 anos, finalmente iniciávamos as filmagens em maio de 2019 no Rio de Janeiro e terminávamos em setembro em João Pessoa com um grande concerto na sala que hoje leva o nome do maestro José Siqueira no Espaço Cultural da FUNESC.

Foram anos de intensa dedicação em um processo duradouro que nasceu dentro da casa da minha avó quando ela me presentou com o livro sobre seu irmão e que, duas décadas depois,se concretizava com a produção do filme sobre o meu tio avô, o maestro, professor e compositor paraibano José Siqueira.

Em 2021, todos poderemos ver esse importante trabalho que irá contar pela primeira vez, nos cinemas e na televisão, a história de um dos maiores nomes da música brasileira.


Os comentários a seguir são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.