Brasil

Professor Afonso Scocuglia destaca por que Paulo Freire é considerado o patrono da educação brasileira e o pedagogo mais estudado do mundo  

A nova Revista NORDESTE está imperdível. Logo nas primeiras páginas da edição de nº 168, que pode ser encontrada nas bancas ou em edição virtual (Clique aqui para acessar), uma entrevista concedida pelo professor doutor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Afonso Scocuglia, ao jornalista Walter Santos sobre o centenário do educador Paulo Freire, que será celebrado em 2021.

Na entrevista, Afonso Scocuglia destaca com riqueza de detalhes por que Paulo Freire é considerado o patrono da educação brasileira e o pedagogo mais estudado do mundo. Ele também revela o trabalho do ilustre pedagogo em Estados nordestinos.

LEIA NA ÍNTEGRA:

Entrevista com o professor Afonso Scocuglia (Reprodução: Revista NORDESTE)


CEM ANOS DEPOIS, PAULO FREIRE MANTÉM VIVA SUA PEDAGOGIA

Educador reconhecido aponta em breve, Paulo Freire como brasileiro mais estudado no mundo. Rio Grande do Norte comemora Centenário à base de Angicos, mas ele atuou em Pernambuco e Paraíba, diz Scocuglia.

 

Por WALTER SANTOS

O ano de 2021 concentra as atenções voltadas para os efeitos da gravidade da COVID mas neste ano o mundo, particularmente no Brasil, consolida o Centenário do mais importante educador brasileiro de todos os tempos de nome Paulo Freire. Esta é a essência da entrevista com o professor doutor Afonso Scocuglia traduzindo detalhes da história do educador em seu Centenário.

REVISTA NORDESTE – Pergunta simples: qual o significado de Paulo Freire na educação do Mundo como personagem e referência?

Afonso Scocuglia – Para começar, quando a gente fala de Paulo Freire, estamos falando de um autor muito complexo. Talvez, para quem não é estudioso ou aprofundado da área, se passe a impressão de que Paulo Freire é alguém fácil, mas, na essência sua teoria complexa e vem sempre da prática educativa, das suas observações e experimentações. É complexa porque mistura autores e tendências em filosofia, antropologia, sociologia e nas ciências da  educação.

NORDESTE – Como descomplicarmos e entendermos seu legado com maior clareza?

Afonso Scocuglia – Reitero: entender Paulo Freire é algo complexo. Ele é um autor que construiu seu pensamento durante várias décadas e pode ser explicado no sentido do “pensamento complexo” (Edgard Morin). Um pensamento que é volumoso, interdisciplinar e mistura várias tendências teóricas. A meu ver, precisamos estudá-lo e praticá-lo com frequência: essa é a maneira de “descomplicá-lo” e até reinventá-lo conforme as circunstâncias das práticas educativas.

NORDESTE – Mas qual a síntese sobre o significado de Paulo Freire?

Afonso Scocuglia – Dentro do pensamento complexo de Paulo Freire precisamos entender a história dele ao longo de décadas. É a partir dos anos 1940, que tudo começa quando diretor do SESI, em Pernambuco, na área de educação de adultos. Depois quando entra na universidade do Recife, hoje Federal de Pernambuco e, junto com uma equipe qualificada, constrói o que ficou conhecido como Método Paulo Freire. A partir daí ganha dimensão nacional e internacional construindo uma grande trajetória educativa que chega até 1997 com seu falecimento.

NORDESTE – Como estudioso da obra freiriana, qual os primeiros grandes movimentos revolucionários dele até chegar onde chegou?

Afonso Scocuglia – A começar pela Método Paulo Freire (início dos anos 1960), é preciso lembrar que ele foi nomeado coordenador do Plano Nacional de Alfabetização do Governo Goulart. E é nesse posto que ele foi alcançado pelo Golpe Militar de 1964 e depois foi para exílio. Ficou dezesseis anos fora do país e só voltou para o Brasil na década de 1980, após a Anistia. Nessa trajetória, em lugares diferentes, em contextos diferentes, com equipes diferentes, ele vai fabricando um pensamento original, mas ao mesmo tempo vai buscar subsídios em várias matrizes teóricas, em vários autores que são desde a teologia da libertação, até autores do marxismo. Assim ele vai construindo a sua pedagogia que ele chamou de “pedagogia do oprimido”, mas, também chamou de Pedagogia da esperança, da autonomia. Então, como disse, estamos diante de um pensamento complexo no sentido de volumoso, que é interdisciplinar, misturando várias áreas e é decorrente das várias experiências que ele vivenciou. Seja dando aula na Universidade de Harvard (uma das mais conceituadas do mundo), seja na África, ficando dez anos em Genebra, nos anos 70, no Conselho Mundial das Igrejas, já que ele sempre foi um cristão progressista. Depois ele volta para o Brasil, vai trabalhar na PUC de São Paulo, na UNICAMP, além de continuar a ser solicitado em muitas universidades do exterior.

NORDESTE – Qual o vínculo dele com a criação de novas referências políticas e até partidárias, por exemplo?

Afonso Scocuglia – De fato, como muitos intelectuais da época, ele é um dos co-fundadores do Partido dos Trabalhadores no Brasil, embora nunca tenha sido candidato ou participado na política partidária. Nunca misturou suas atividades educativas como as partidárias, embora pugnasse pela inseparabilidade da educação com a política (no sentido da democracia, da cidadania, dos direitos dos oprimidos etc.).

NORDESTE – Em que dimensão?

Afonso Scocuglia – Paulo Freire é tido como um dos principais educadores do mundo a partir do século 20. Não só pela proposta de metodologia de alfabetização de adultos, mas por toda a sua filosofia de educação e as suas ideias práticas e teóricas sobre a educação. Sem dúvida, é um autor atualíssimo justamente porque os temas que ele tratou são temas muito contemporâneos. Hoje é referenciado como o terceiro autor mais citado das ciências humanas e sociais! E o seu livro mais conhecido (Pedagogia do Oprimido) está entre os 100 livros mais lidos em língua inglesa do planeta!  Isso é muito importante. Imagine a grandeza disso.

NORDESTE – Quais os desdobramentos relevantes no futuro próximo?

Afonso Scocuglia – O volume, a originalidade e a qualificação da sua obra lhe leva a ser um autor que caminha para ser o pensador mais citado dentro das ciências sociais e ciências humanas. É um autor referenciado mundialmente que construiu sua trajetória no Século 20 e que prospectou a educação no século atual.

NORDESTE – Qual a dimensão dele?

Afonso Scocuglia – Hoje Paulo Freire é muito estudado em escala planetária, inclusive nas vinte principais universidades do mundo. Praticado em todos os continentes. O próprio Instituto Paulo Freire (www.paulofreire.org) tem amplificação em vinte e sete países. Das américas (do sul, centro e norte) à Europa, na África e em vários países asiáticos inclusive.

NORDESTE – Por que? Onde tudo isso chega?

Afonso Scocuglia – Muito resulta em função das temáticas humanistas, principalmente, que o Paulo Freire coloca como referência. Quer dizer, o mundo o estuda (não só na educação de adultos) mas na educação de em geral. Como um pensador da educação e um pensador que não só se projetou no século 20, pois deixou valores, temáticas e um relevante legado que o evidenciam no mundo todo na atualidade. Infelizmente não ocorre na mesma dimensão no nosso país.

NORDESTE – Quais conceitos podemos destacar?

Afonso Scocuglia – Ele fala de uma educação dialógica, uma educação da liberdade, educação cada vez mais democrática. Ele fala ainda de uma educação conscientizadora, quer dizer, ele fala da educação que tem respaldo e reflexo no mundo todo em suas temáticas. São dezenas de conceitos muito importantes. Para as pessoas interessadas em aprofundar seus conceitos fizemos o programa PAULO FREIRE VIVO na TVUFPB (https://www.youtube.com/user/TVUFPB) que está inteiramente disponível no YOUTUBE com 30 vídeos.

NORDESTE – Como tratá-lo além da pedagogia?

Afonso Scocuglia – Muitos enxergam Paulo Freire como alguém que fez um método de alfabetização. Isso é verdade. Só que ele foi muito mais importante do que isso. Ele escreveu dezenas de livros sobre as mais variadas temáticas educativas, pedagógicas e escolares que vão das que eu já citei até a formação dos professores. Os temas de Paulo Freire são muito amplos. Dezenas de livros dele estão disponíveis no Brasil e no exterior, inclusive na rede web/internet.

NORDESTE – Como é a fase pós exilio?

Afonso Scocuglia – Passando pelo Brasil como um todo, depois com o exílio, ele ganhou uma dimensão mundial.  Para se ter uma ideia, ele foi convidado para ser professor de Harvard e passou quase um ano lá, depois foi para o Conselho Mundial das igrejas como o cristão progressista que sempre foi. Aliás, Paulo Freire teve essa característica, até por ter sido ligado a Dom Helder Câmara (e à “igreja dos pobres”), inclusive.  Depois, foi trabalhar na PUC-SP com Dom Evaristo Arns.  Essa ligação com o catolicismo progressista sempre foi forte, a partir das encíclicas do Papa João XXIII, que deságuam depois na Teologia da libertação (com Frei Leonardo Boff, Frei Betto e outros). Com essas e outras influências ele constrói uma pedagogia original, uma educação original, que está sempre procurando propor e resolver as questões das camadas populares na educação, ou seja, atua na educação popular. Com isso, ele faz um diálogo com vários autores clássicos e contemporâneos. O meu livro A história das ideias de Paulo Freire e atual crise de paradigmas pode ajudar aqueles que querem maior aprofundamento. A sétima edição está disponível em e-book, gratuito, no site da Editora da UFPB (www.editora.ufpb.br). Basta acessar.

Entrevista com o professor Afonso Scocuglia (Reprodução: Revista NORDESTE)

NORDESTE – Qual o papel da experiência de Angicos em 1963/1964?

Afonso Scocuglia – Foi uma experiência importante, mas longe de ser a única.  Na minha visão, não é mais importante que, por exemplo, a experiência do Movimento de Cultura Popular do Recife/Pernambuco.  Também não é mais importante que é a experiência da Campanha de Educação Popular da Paraíba (CEPLAR), assim como tem várias outras. Existem muitas referências, teses e livros disponíveis sobre todas elas.

NORDESTE – Mas é referência…

Afonso Scocuglia – Como as outras citadas. Ela ficou famosa porque ganhou uma mídia sem igual e foi feita e projetada pelo então Governador do Rio Grande do Norte, Aloísio Alves. Esta experiência foi financiada com verbas da USAID americana que, depois, quando perceberam o seu teor, deixaram de financiá-la. Sem nenhum “bairrismo” a CEPLAR (da Paraíba) foi mais importante e relevante. Isso foi reconhecido pela própria equipe do Paulo Freire.

NORDESTE – Como dimensionar outras experiências?

Afonso Scocuglia – Por exemplo, a Campanha de Educação Popular da Paraíba teve 135 núcleos, círculos de cultura. Tanto em João Pessoa, Campina Grande, como no eixo das ligas camponesas (Sapé etc.). Há também o Movimento de Cultura Popular (MCP) de Pernambuco, considerado o mais importante de todos, ao meu ver, porque ligou a questão da cultura com a educação popular. No próprio Rio Grande do Norte, existiu outra campanha importante que foi o movimento De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. E muitas outras, Brasil a fora.

NORDESTE – E a fase no Governo Erundina em São Paulo?

Afonso Scocuglia – Ele esteve como secretário de educação do governo Erundina, em São Paulo, no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Dos quatro anos da Erundina, Paulo Freire ficou dois, deixou que trabalhasse com ele, o Mário Sérgio Cortella, Moacir Gadotti, entre outros educadores e intelectuais. O Mario Sérgio Cortella se tornou secretário depois da saída de Freire. Continuaram o seu trabalho e se tornaram referência na gestão democrática, na formação e valorização de professores e em muitos outros projetos.

NORDESTE – Há quem trate Paulo Freire como o brasileiro mais laureado…

Afonso Scocuglia –  A questão dos títulos do doutor Honoris Causa de Paulo Freire é algo relevante porque ele recebeu mais de 40 títulos pelo mundo afora, de universidades dos mais variados países. Mostrando a respeitabilidade e a referência que ele se tornou como educador. Ele teve passagens, como eu disse, pela América Latina, pelos Estados Unidos, pela Europa, pela África e pela Ásia. Hoje seu legado está presente no mundo todo, sendo respeitado. Não só pelos seus títulos, mas por toda a sua imensa obra prática e teórica.

NORDESTE – Existem outros diferenciais?

Afonso Scocuglia –  Sim. Desde registros de utilização das suas ideias pelos movimentos feministas no mundo até o MST no Brasil. Então, a projeção do legado do Paulo Freire é mundial, não só nas Universidades, mas, também, na sociedade civil e suas organizações.

NORDESTE: E o significado do centenário de Paulo Freire neste ano?

Afonso Scocuglia – Em síntese, ele chega ao Centenário (1921-2021) como o brasileiro mais relevante em todo o mundo por sua história, sua obra e seu legado. Caminha para ser o autor mais citado e referenciado das ciências humanas e sociais em todo o mundo, traduzido em dezenas de idiomas e indicado como um dos educadores mais importantes do século 20 e que projeta a sua obra para o presente e para o futuro!


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