Nordeste

Cancelamento de festejos juninos por causa da pandemia provoca prejuízo de quase R$ 1 bi para estados do Nordeste

Festividades geram empregos de forma direta e indireta, além da queda na arrecadação dos estados e municípios

24/06/2020


Edição do São João de Campina Grande, em 2019

Revista Nordeste

Com a pandemia do novo coronavírus municípios do Nordeste cancelaram as suas festividades juninas, essas que geram milhares de empregos e injetam quase 1 bilhão de reais nas economias locais durante o período. De acordo com a prefeitura de Caruaru (PE), o evento gera 20 mil empregos e movimenta cerca de R$ 200 milhões na economia. Só em impostos, o município estima que vai deixar de arrecadar R$ 2 milhões apenas em junho.

“A festa movimenta todos os setores da nossa economia. Dos repentistas aos trios de forró, da gastronomia à rede hoteleira, todo mundo depende do São João”, diz Raquel Lyra (PSDB), prefeita de Caruaru desde 2017. Os relatos foram publicados na BBC.

Ator e diretor do tradicional teatro de mamulengo (um tipo de fantoche), Sebastião Alves Cordeiro Filho, o Mestre Sebá, afirmou que “a festa de São João é a preservação da vida do nordestino”. “O que seria de um repórter sem a comunicação? O que é um médico sem paciente? O que seria de Caruaru sem o São João e sua cultura popular?”, acrescentou.

“Não ter São João é algo inédito na minha vida. Não poder me apresentar, depois de 40 anos atuando, causa uma grande angústia”, diz Mestre Sebá, de 63 anos, coordenador de uma trupe teatral com 65 pessoas, entre atores, técnicos e manipuladores de bonecos.

O ator tem sobrevivido com R$ 1 mil por mês, dinheiro de uma bolsa paga pela prefeitura. “Mas muitos outros artistas estão passando grandes dificuldades”, diz.

Em Campina Grande (PB), no maior São João do Mundo, a situação não é diferente. “A gente estima que o São João movimente cerca de R$ 200 milhões todos os anos. São 5 mil empregos. É uma cadeia produtiva enorme, que sustenta muita gente: dos vendedores ambulantes à gastronomia local”, diz Romero Rodrigues (PSD), prefeito da cidade.

Desde 2017, a cidade terceirizou a organização da festa. No ano passado pagou, por meio de uma licitação, R$ 2,8 milhões para uma empresa organizar, contratar artistas e criar toda a estrutura do evento.

Um estudo da Universidade Potiguar apontou que, para cada R$ 1 que a cidade de Mossoró (RN) investiu no São João no ano passado, outros R$ 14 foram injetados na economia do município do semiárido do Rio Grande do Norte.

Segundo Lahyre Neto, secretário municipal de desenvolvimento econômico e de turismo, o São João movimentou R$ 94 milhões em 2019. “Neste mês, com a pandemia e o cancelamento do evento, esperamos uma queda de 30% na arrecadação”, diz.

São João de Mossoró é conhecido pela tradicional festa Pingo da Mei Dia, que reúne trios elétricos, e pela peça Chuva de Bala, que encena a tentativa frustrada do cangaceiro Lampião de invadir a cidade, em 1927.

“É um baque enorme não ter a festa, um vazio no coração do mossoroense. Toda a rede hoteleira está paralisada e demitindo funcionários, além dos comerciantes e dos artistas locais que dependem do São João para sobreviver no restante do ano”, afirma Neto.


Os comentários a seguir são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.