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Revista NORDESTE: Giucélia Figueiredo, diretora da Mútua, avalia em entrevista a conjuntura da engenharia nacional pós-pandemia e aponta desafios

atual diretora da Mútua na Paraíba (Caixa de Assistência dos Profissionais dos Creas), concedeu entrevista exclusiva à Revista NORDESTE

01/10/2020


Giucelia Figueiredo é dirigente da Mútua (Arquivo)

Revista Nordeste

A engenheira Giucélia Figueiredo, ex-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Paraíba (Crea/PB) e atual diretora da Mútua (Caixa de Assistência dos Profissionais dos Creas), em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, avaliou a atual conjuntura da engenharia brasileira diante de um contexto de (pré e pós) pandemia da Covid-19, que afetou a profissão. Ela considera fundamental a rearticulação da categoria para enfrentar e superar o desmonte em curso acreditando que as entidades cumprem papel determinante.

Leia na íntegra:

Entrevista de Giucélia Figueiredo à Revista Nordeste (Reprodução)

OS NOVOS DESAFIOS DA ENGENHARIA NO BRASIL

Diretora da MÚTUA Nacional expõe com detalhes os problemas na conjuntura e as urgências para garantir a profissão fundamental

Por WALTER SANTOS

O cenário da engenharia brasileira, como de sorte dos diversos segmentos da sociedade brasileira, anda afetado com os efeitos da pandemia gerada pela COVID-19 a exigir medidas e ações articuladas para manter a profissão e seus profissionais superando retrocessos. É o que analisa a diretora da MÚTUA, engenheira Giucélia Figueiredo apontando diversas leituras e propõe rearticulações visando recompor o status afetado também pela conjuntura. Eis a entrevista exclusiva a seguir:

Revista NORDESTE – Qual a realidade efetiva do cenário da engenharia brasileira em meio a tantos atos de retrocesso político nacional e estrutural?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – A realidade da engenharia brasileira é de crise. Passamos de um momento de pleno emprego, entre os anos de 2009 e 2013, para um contexto de alto índice de desemprego, com o fechamento de empresas nacionais e a paralisação de obras. De 2014 até os dias de hoje, a engenharia convive com as amargas consequências da Operação Lava Jato que puniu as empresas, em vez das pessoas responsáveis pelos atos de corrupção.

NORDESTE – Comparativamente, como a realidade se registra noutros países?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Em outros países do mundo, as empresas nacionais são mantidas e reorganizadas em seus protocolos de transparência e de combate à corrupção, o que não ocorreu por aqui. O Brasil viveu, e ainda vive, os retrocessos desse momento que também levou ao golpe do mandato da presidenta Dilma Rousseff. O combate à corrupção é necessário, inclusive para a defesa da democracia, mas a Operação Lava Jato instaurou práticas que inviabilizaram o desenvolvimento da engenharia nacional, contribuindo com o desaquecimento da economia, a estagnação do desenvolvimento social e afetando diretamente a soberania de nosso país.

NORDESTE – Neste cenário, qual o contexto a envolver os profissionais da engenharia?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que até 2013, o saldo entre os engenheiros com carteira assinada admitidos e desligados era positivo. No entanto, a partir de 2014, o número de profissionais demitidos superou o de contratados.

De acordo com a pesquisa “O mercado de trabalho e a formação dos engenheiros no Brasil”, de autoria do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com apoio do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR), da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e patrocínio da Mútua, em 2015, 325 mil pessoas concluíram os cursos de engenharia e somente 146 mil efetuaram seus registros profissionais no Sistema Confea/Crea’s.

NORDESTE – Qual o papel do Confea como representação brasileira da engenharia neste contexto?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – O papel do Confea neste contexto é de defesa da engenharia e da soberania nacional. Nos últimos anos, o presidente licenciado, Joel Krüger, empenhou todos os esforços para ampliar e dar visibilidade ao papel social da engenharia, principalmente na garantia de maior segurança e proteção à população e também como motor da economia e do desenvolvimento.

NORDESTE – Efetivamente como tem se dado a articulação extra-categoria?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Esse trabalho acontece tanto nos meios de comunicação como também nas entidades de classe, organizações e no Congresso Nacional. Todo gestor público compreende o impacto das obras de infraestrutura e da atuação da engenharia no PIB (Produto Interno Bruto) no país. O Confea também age contra a irrestrita abertura do mercado de trabalho para profissionais estrangeiros. Isso porque com o alto desemprego, mesmo o Brasil acumulando profissionais de alta qualidade e memória técnica, muitas empresas estrangeiras já preveem a contratação de profissionais de fora, desvalorizando as nossas profissões.

NORDESTE – Mas há projetos de privatização?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Já em relação à soberania nacional, é importante destacar que o plenário do Confea aprovou um posicionamento contrário à privatização da Eletrobras, bem como o fomento aos debates diante da privatização do saneamento brasileiro. A recuperação da economia brasileira depende do trabalho da engenharia nacional e da ampliação dos investimentos em infraestrutura.

NORDESTE – Quais os desafios e as mais importantes reivindicações do segmento na atual realidade?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – A engenharia tem grandes desafios pela frente. Primeiramente lutar contra o desmonte da engenharia e contra a desnacionalização de nossa economia. Hoje, com a Covid-19, vemos muitos profissionais com seus contratos de trabalho suspensos ou com reduções salariais que afetam sua renda mensal. Por outro lado, também temos profissionais contratados por MEI ou PJ que sequer têm os direitos trabalhistas respeitados e estão sem qualquer remuneração com o cancelamento de projetos e contratos.

Entrevista de Giucélia Figueiredo à Revista Nordeste (Reprodução)

NORDESTE – Como fica o Estado com a missão de indutor econômico e social?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Mais do que nunca, a engenharia precisa empenhar esforços para reivindicar o papel do Estado brasileiro em políticas de proteção social diante da Covid-19. Inclusive, outros países têm fortalecido políticas de renda básica permanente e investimentos públicos nas áreas de saúde e infraestrutura. Isso significa defender que os hospitais de campanha, leitos e equipamentos sejam legados permanente para a sociedade.  Temos a responsabilidade de reconstruir a engenharia e o Brasil no pós-pandemia.

NORDESTE – Como andam as articulações no Congresso Nacional tratando os mais diferentes projetos de lei a afetar a categoria?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – O Confea, ao lado de outras entidades, diligenciou inúmeras visitas e conversas com parlamentares no Congresso Nacional, que fomentou a criação da Frente Parlamentar Mista da Engenharia, Infraestrutura e Desenvolvimento Nacional.  No campo específico dos direitos da engenharia, houve esforços pela retirada da PEC 108 que flexibilizava o mercado para profissionais estrangeiros sem qualquer regulação, além da defesa do Salário Mínimo Profissional e do projeto de lei que inclui a engenharia como carreira de Estado. Já em relação às questões nacionais, há a luta contra as privatizações de empresas como Eletrobras, Petrobras, Caixa Econômica Federal (CEF), que são empregadoras de engenheiros e referências na defesa da soberania nacional.

NORDESTE – Quais as ameaças preocupantes?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Por exemplo, a privatização da Caixa Econômica coloca em risco os recursos do FGTS para obras de infraestrutura e saneamento, pode afetar a logística do Auxílio Emergencial e provocar o desemprego de engenheiros servidores que atuam na CEF. Além disso, também acontecem articulações em defesa do serviço público brasileiro que sofre tentativas de reforma administrativa.

NORDESTE – Quais os mais importantes interlocutores do segmento no Congresso Nacional?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO –.Hoje, no Congresso, temos a Frente Parlamentar Mista da Engenharia, Infraestrutura e Desenvolvimento Nacional, cujo objetivo é promover discussões sobre o papel da engenharia, além de incorporar no debate público a importância da infraestrutura no desenvolvimento social e sustentável. A Frente, composta por 219 deputados e 32 senadores, também prioriza projetos de lei relacionados ao papel estratégico da engenharia na retomada de investimentos públicos, de modo que possamos retomar um ciclo produtivo de geração de emprego e renda no país. Estabelecemos diálogo com todos os agentes políticos que estejam em defesa da engenharia e da soberania nacional.

NORDESTE – Como compatibilizar os interesses do Sul e Sudeste com outras bases importantes, como o Nordeste?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Primeiramente, precisamos pensar o Brasil a partir de políticas que não sejam centralizadas nas regiões Sul e Sudeste como marcadores prioritários. O nosso país possui dimensões continentais e tem seu território marcado por uma vasta diversidade. Sabemos como o nosso Nordeste vem sendo negligenciado tanto na destinação orçamentária e de realização de obras de infraestrutura como também nos discursos de ódio institucionais do governo federal. É preciso vontade política para o direcionamento de recursos para o Nordeste que é muito rico em diversidade de produção de alimentos e tem forte impacto no PIB. No entanto, sofremos com a desigualdade social e estamos voltando aos patamares da fome e da miséria. Essa semana, o governo federal anunciou a prorrogação do Auxílio Emergencial com corte pela metade do valor. No Nordeste, por exemplo, o benefício ampliou em mais de 23% o rendimento de famílias, de acordo com pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

NORDESTE – Até onde a saída dos arquitetos enfraqueceu os Creas?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Respeito a autonomia e a decisão da categoria dos arquitetos de se organizarem em espaços exclusivos com o objetivo de debaterem pautas específicas. Os profissionais da arquitetura e suas respectivas entidades são parceiros da engenharia em diversas reivindicações, como o cumprimento da lei do Salário Mínimo Profissional nº 4.950-A/1996 e a luta contra a PEC 108/2019. Recentemente, as entidades de arquitetura também uniram esforços com os engenheiros contra a privatização da Caixa Econômica Federal. Mesmo com a saída dos arquitetos do Sistema Confea/Creas, seguimos uma política de aliança por uma agenda em comum de defesa das profissionais e da soberania nacional.

NORDESTE – Qual o papel do engenheiro brasileiro na futura realidade?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – O papel da engenharia no atual momento é contribuir para a reconstrução do Brasil no pós-pandemia. E podemos contribuir com nosso trabalho na construção de hospitais de campanha, tratamento de água e esgoto, geração e distribuição de energia, elaboração de respiradores, produção de alimentos seguros e de produtos de higiene. Temos um papel social fundamental na retomada do desenvolvimento e no enfrentamento ao Coronavirus.

NORDESTE – E os processos eleitorais em curso?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – Já na arena política, este ano, teremos dois momentos fundamentais, as eleições do Sistema Confea/Creas e o processo eleitoral para as Prefeituras e Câmaras de Vereadores. Nós, engenheiros e engenheiras, podemos contribuir com nosso conhecimento e técnica no planejamento das cidades e do campo, recuperando investimentos, fortalecendo empresas nacionais e a economia local. Podemos construir uma agenda de estratégias de reconstrução econômica e social das cidades durante e pós-pandemia, de modo a fortalecer as políticas de infraestrutura e os investimentos públicos.

NORDESTE – Como a Indústria 4.0 pode ajudar o engenheiro?

GIUCÉLIA FIGUEIREDO – A Indústria 4.0 nos traz uma dicotomia. Por um lado, há a previsão de um desemprego estrutural, como já anunciado no Fórum Mundial de Davos. E por outro lado há uma janela de oportunidades para as nossas áreas, desde que o Brasil esteja comprometido com pactos sociais de proteção aos trabalhadores e ao meio ambiente, como também de regulação das empresas e das tecnologias. Afinal, para quem será destinada a produção dessa tecnologia? Quem terá dinheiro para consumir? Estas questões nos colocam a pensar sobre como a Indústria 4.0 poderá aprofundar ou diminuir a pobreza, por exemplo. Para isso, é fundamental uma política de conteúdo local para a produção dessas tecnologias, valorização dos profissionais e da soberania nacional e fortalecimento dos institutos federais técnicos.


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