Internacional

Revista NORDESTE: Ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, avalia conflito entre Rússia e Ucrânia

A edição de nº 181 da Revista NORDESTE apresenta entrevista exclusiva com o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que avalia os conflitos que tem dividido o mundo, entre a Rússia e a Ucrânia, mas que envolve os países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a China.

É possível ler a entrevista na íntegra na edição impressa da Revista NORDESTE, nas principais bancas, e também na versão virtual disponível no site da própria revista ou no Portal WSCOM (Clique no link para acessar a edição).

Reprodução: Revista NORDESTE

Leia a matéria na íntegra:

UM OLHAR DO BRASIL SOBRE A UCRÂNIA

Ex-ministro das Relações Exteriores avalia conflitos entre OTAN(EUA) e Rússia/China que divide o mundo

Por Walter Santos

A tensão elevadíssima em torno da Ucrânia chama a atenção por vários fatores e até a anunciada viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia em plena grave crise. Só que no contexto perdura a sabedoria e conhecimento internacional do ex-chanceler Celso Amorim pontuando caminhos do Brasil na contemporaneidade.

Revista NORDESTE – Como o Sr com conhecimento de causa tem visto a Guerra Fria entre OTAN (EUA) e Rússia em torno da Ucrânia? Na sua opinião que está por trás desta corda esticada unindo China e Rússia construindo novo Bloco de força? Seria a interferência da indústria armamentista ocidental?

Celso Amorim – Essa crise é uma crise muito séria. Na realidade, tem havido um interesse dos Estados Unidos estratégico, vários governos têm seguido, de certa forma a deixar a Rússia meio encurralada. Primeiro, foram os países do Leste Europeu chamados países satélite da União Soviética, mas que na realidade países considerados formalmente independentes. E depois com países inclusive da antiga União Soviética. Já os países bálticos fazem parte da outra e há tentativas também em relação à Georgia e à Ucrânia, e isso obviamente deixa a Rússia muito temerosa. Eu confesso em certa medida que tenho até a certa dificuldade de compreender isso porque não há mais o motivo ideológico, o motivo é geopolítico. Por que exatamente a Rússia tem que ser objeto dessa pressão é algo que eu tenho às vezes dificuldade de compreender e o resultado prático tem sido uma aproximação cada vez maior da Rússia com a China.

NORDESTE – A conjuntura empurra a Rússia a criar novo pacto geopolítico com a China?

Celso Amorim – Realmente, esse bloco de força como você chama se denomina de força Eurasiano, que vai se formando. A declaração entre o Putin e o Xi Jinping é possivelmente o fato político, geopolítico, o mais importante desde a queda do muro de Berlim e da dissolução da União Soviética, além disso marca realmente um novo momento muito complexo porque se, digamos, a China economicamente está prestes a participar a ultrapassar os Estados Unidos do ponto de vista econômico, a Rússia é uma grande potência militar em termos de armamento estratégico talvez, não amamento convencional ou amamento até eletrônico para uma guerra localizada. Eu acho que Estados Unidos são muito na frente, mas em termos de armamento estratégico, mísseis e armas nucleares a Rússia está em paridade até alguns aspectos mais à frente. Então, na medida em que a Rússia e a China formam um bloco defensivo, uma aliança não só econômica, mas praticamente, ainda não posso dizer que é uma aliança militar. Acho que isso modifica o equilíbrio político no mundo e é algo que nós teremos que conviver.

NORDESTE – Qual o papel da indústria armamentista nesse processo?

Celso Amorim – Acho que a indústria armamentista pode ser que tenha alguma influência nisso, mas creio que o que está em jogo é muito maior e muito mais complexo e com muito mais perigos, do que um lucro adicional que poderia ser obtido com várias guerras localizadas que tem havido também, como houve no Iraque, na Líbia, em outros lugares.

NORDESTE – Como definir tamanho conflito?

Celso Amorim – É uma coisa complexa que tem a ver com o domínio do coração geopolítico da Eurásia, de certa forma, e eu acho que o desenvolvimento ao meu ver o ponto de vista estratégico não tem sido positivo para os Estados Unidos. Essa aproximação entre China e Rússia como, eu disse, é um fato de grande importância.

NORDESTE – Lula chegou a construir acordo com o Irã melhor do que os EUA conduziram. O que o Brasil poderia propor na situação atual da Ucrânia?

Celso Amorim – O Brasil é um país que sempre foi capaz de favorecer o diálogo. Talvez num contexto amplo em que vários países participassem, talvez o Brasil pudesse dar sua contribuição. Mas nós temos também que ser, sabendo da nossa influência, da nossa capacidade também, tendo consciência de que este é um tema muito central de estratégia mundial e eu acho que seria muito difícil. Agora, quem sabe no contexto mais amplo que houvesse grupos regionais, da América do Sul, América Latina, em geral, da Europa ocidental inclusive, seria possível fazer uma conversa que contribuísse para resolver não todas as questões da Ucrânia, mas para ajudar amortecer as tensões e favorecer o diálogo.

NORDESTE – O Sr. se manifestou sobre ótima relação de um governo Lula com EUA. O Sr. acha ser possível com o Brasil liderando a América do Sul, algo que incomoda os americanos?

Celso Amorim – O Brasil tem que ter uma relação pragmática com todas as grandes potências e certamente com o Estados Unidos, que tá aqui no nosso continente, que tem uma influência muito grande no que acontece na América Latina e na América geral e é um parceiro importante do Brasil em muitos aspectos. Claro que também ter consciência de que a China hoje em dia, do ponto de vista comercial, é muito mais importante para o Brasil do que o que são Estados Unidos. A exportação do Brasil para China é quase três vezes ou um pouco menos, ou seja o triplo do que é para Estados Unidos. Então isso também não pode ser ignorado. O que acho que é fundamental é que nessa situação o Brasil e a América do Sul também não devem tomar partido, não há razão para se ter um partido. Temos que ter boas relações, pragmáticas, com um e com outro, tentando obter o melhor de cada lado. Do ponto de vista científico, os Estados Unidos são grande produtor de ciência, a China está sendo também, pela primeira vez o número de publicações científicas lá ultrapassou o norte-americano, mas os Estados Unidos continuam sendo parceiro importante. Acho que é preciso ter uma relação, também porque estamos aqui no continente, tem uma influência. E aí sim eu acho que o Brasil pode contribuir como contribuiu no passado a procurar soluções que sejam baseadas no diálogo, baseadas na negociação, e eu entendo que é quase impensável você achar que os Estados Unidos não vão ter interesse, que não vão participar. Mas o Brasil pode sim contribuir para que as soluções sejam respeitosas da soberania de cada país baseadas no princípio da não intervenção e da solução pacífica de controvérsias.

NORDESTE – Por fim, pelos dados existentes, quando Lula fará nova viagem internacional e para onde?

Celso Amorim – Eu tenho conversado com o presidente. Não posso dizer que não vai haver outras viagens. Neste momento hoje a única viagem realmente programada é o México supondo que a pandemia permita isso deve realizar no início de março. Não tô excluindo que haja outras aqui na América Latina ou alguma outra é possível, mas não tem mais nada programado.


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