Brasil

Professor de Economia e Pensador Marcos Formiga faz mergulho histórico sobre 60 anos de Brasília

21/04/2020


Por Walter Santos
O professor doutor Marcos Formiga não para de refletir sobre a conjuntura; há anos morando em Brasília. Nesta terça-feira, 21 de abril de 2020, ele comemorou 60 anos da capital federal.
Eis a análise dele:
Somos personagens de muitos projetos. Vindo do Nordeste, aqui vivo há mais de 45 anos. Cheguei, quando uma jovem e promissora debutante capital do Brasil completaria 15 anos, ainda em processo de finalização dos projetos urbanístico de Lucio Costa, e arquitetônico de Oscar Niemeyer, liderados pelo estadista JK, seu criador.
Neste intervalo de seis décadas, testemunhei fatos marcantes da nossa História: 460 anos depois da chegada dos europeus, constata -se, inspirado pelo nosso insigne militar e sertanista Cândido Rondon, que havia um vasto território pertencente a diversas etnias indígenas – os verdadeiros donos da terra – ainda a ser preservadas, com acessibilidade aos serviços públicos e básicos que assegurem sua integridade cultural e sobrevivência digna.
Brasília em sua primeira década presenciou fatos políticos relevantes: o País agora industrializado, deixa de ser uma sociedade rural para tornar-se uma sociedade majoritariamente urbana, graças ao desenvolvimentismo pioneiro de Vargas, consolidado em industrialização por Kubistchek.
Assistiu em estado de choque à mudança do regime político do presidencialismo para o parlamentarismo, devido atitude impensada de um presidente, apenas sete meses depois de assumir o cargo. Pela vontade do povo fez retornar, por um plebiscito, ao regime presidencial. Mas, o presidente João Goulart em defesa das Reformas de Base, viu- destituído por golpe militar.
Aos 18 anos, a Constituição de 1946 foi esquecida, e por 21 anos persistiu o regime militar e eleições indiretas e políticos ”biônicos”, ou seja, não eleitos pelo povo.
Registra-se em parte deste longo período, o chamado “milagre econômico“, altas taxas de crescimento, e em paralelo, inicia-se um processo galopante de inflação com desvalorização e trocas do padrão da moeda. Mesmo assim, o Brasil em 50 anos entre 1930 (Vargas) a 1980 (Médici) foi o segundo país do mundo em crescimento, só superado pelo Japão. E finalmente, entra no grupo dos 10 países com maior PIB.
Enquanto, se acentuam as desigualdades sociais e os desequilíbrios regionais (55% de pobres), 40% de classe média, e 5% de classe alta com grande concentração de renda para poucos privilegiados (1% de milionários). Este perfil de renda se assemelha ao existente na também desigual Índia.
Em 1985, depois de frustradas campanhas pelas eleições presidenciais diretas (”diretas já”), a própria oposição se rende ao fatalismo eleitoral e consegue derrotar, com Tancredo Neves, o candidato dos militares.
Com o retorno à Democracia, Brasília em seguida, será merecidamente reconhecida pela Unesco, como “Patrimônio mundial da Humanidade”, pela singularidade e beleza estética de sua arquitetura e solução urbana.
Termina o período autoritário e já na vigência da nova Constituição “Cidadã”, cujo artífice principal Deputado Ulisses Guimarães, será reconhecido.
Verifica-se a fragmentação dos partidos políticos, a falta de renovação de liderança política, conduzindo à desestabilização econômica e persistência inflacionária, e seguidos planos econômicos fracassados.
Perde -se a chance da primeira eleição presidencial direta em 30 anos, e em vez de um grande pacto político social (nos moldes do Pacto de Moncloa, na Espanha), optou -se por uma desastrada aventura política, mesmo de breve duração, mas com acumulação crescente de custos sociais para o povo e continuidade da instabilidade econômica.
A República brasileira, desde a metade do século passado, tem experimentado a ascensão de vice-presidentes da República, quase a cada década, por diferentes eventos ocorridos com os presidentes titulares: suicídio, renúncia, golpe militar, morte e impeachements. Brasil sob a liderança de um deles, Itamar Franco, consegue elaborar um plano de estabilização econômica e adoção de novo padrão monetário, que teve sucesso e continuidade com Fernando Henrique.
No novo Milênio, obtida a relativa estabilidade econômica, clama pela principal questão do País: seu limitadíssimo desenvolvimento social.
Por três mandatos presidenciais populares avançou-se na inclusão social e na diminuição da pobreza. O criativo programa “bolsa escola” (criado pelo então governador do Distrito Federal Cristovam Buarque) ganha proporções nacionais com a nova denominação de Bolsa Família, nos governos Lula e Dilma Roussef.
As consequências posteriores da crise econômica internacional de 2008, acrescida da crise política e grandes manifestações sociais fizeram dos últimos 10 anos, mais uma década perdida para o País. Regredimos em termos políticos ao período da ”Nova República”.
Hoje, o personagem mais conhecido – o Coronavírus SARS-CoV-2 – que acima de tudo – limita nossa mobilidade, nos deixa a todos perplexos e faz estagnar a economia do País, além da persistente acentuação da desigualdade e incertezas com o Futuro.
Se em 2000, o Brasil não celebrou, como deveria, o Quinto Centenário da Civilização brasileira. Brasília também, com seus governantes ao meio de uma crise de corrupção política que afastou vários deles, falhou na celebração do seu Cinquentenário em 2010.
Agora, com o Coronavirus, passamos pelos seus 60 anos, mais uma vez, sem ter o que celebrar.
Em meio ao desolador cenário, local, regional e nacional, não podemos nos render, nem nos acomodar.
Dias melhores virão para Brasília e principalmente para o Povo Brasileiro. Um trio de mineiros e grandes brasileiros esperam, e agradecem: Tiradentes, Juscelino e Tancredo.

Brasília, 21 de abril de 2020.


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