Nordeste

Revista NORDESTE: Plano Marshall e as contradições do plano que buscou recuperar a Europa pós 2ª Guerra

08/07/2020


Historiador José Octávio de Arruda Mello assina a matéria

Revista NORDESTE

A nova Revista NORDESTE, periódico com 14 anos, de circulação, já está disponível para os leitores.  A edição 161 (Clique aqui para ler) traz a publicação de matérias com contexto histórico, envolvendo países considerados potências mundiais, que conseguiram se reconstruir e até ajudar comunidades aliadas após grandes catástrofes.

Em uma delas, o historiador José Octávio de Arruda Mello avalia e expõe as várias contradições do Plano Marshall, conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Europeia, que foi a principal medida adotada pelos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa no período pós-guerra.

Leia na íntegra:

PLANO MARSHALL, GUERRA FRIA E NORDESTE DO BRASIL

Historiador avalia e expõe as várias contradições do plano que buscou resolver a Europa pós Guerra

Por José Octávio de Arruda Mello

Na reunião ministerial de 22 de abril, cuja divulgação resultou em um dos mais deploráveis episódios da vida pública brasileira, o ministro Paulo Guedes se opôs aos colegas que pretendiam novo Plano Marshall para o Nordeste brasileiro.

Para o mentor econômico do Governo Bolsonaro, a expressão envolve feição colonialista, o que gerou discussão com os proponentes para os quais o P. M. representa força de expressão.

O que impõe o tema deste artigo: e o que vem a ser esse Plano Marshall que quebra a unidade dos altos escalões da República?

Revivendo a Guerra Fria

Para entendimento do programa que, para muitos, alterou o curso da História Contemporânea, situe-se o contexto do pós Segunda Guerra Mundial, de 1946 a 49.

Nesse período, como a União Soviética abjurava a democracia e os Estados Unidos o Socialismo, os dois aliados da luta contra o Eixo separavam-se, do que resultaria a Guerra Fria onde os States lideravam o Ocidente e a URSS o bloco soviético. Ambos em posição de combate.

A datação da Guerra Fria provém de 1946 em que o ex-primeiro ministro inglês Winston Churchill pronunciou o discurso de Fulton, denunciando Cortina de Ferro – “iron curtain” – sobre o leste europeu.

Para os autores de Origens da Guerra Fria Churchill tinha a seu lado o monopólio da bomba atômica pelos E.E.U.U., o que lhe permitia acusar o controle soviético, de Stettin a Trieste, dos países libertado pelo Exército Vermelho. Nas proximidades, este pressionava Grécia, Turquia e Irã.

Em consonância com essa sistemática, os partidos comunistas mundiais, fiéis a Moscou, alinharam-se no COMINFORM no mesmo ano de 1948 em que a Social Democrata Checoslováquia caía sob o domínio do estalinista Clement Gottwald. No ano seguinte, ampliando essa ofensiva, Stalin procurou apropriar-se da dividida Berlim, defendida pela ponte aérea dos aliados.

A resposta americana

A resposta norte americana se decompôs em vários níveis.

Um deles foi a histeria anticomunista do macartismo que procurou purgar a sociedade americana do “bacilo vermelho” nas política, universidade, cultura, incluindo cinema, e até Forças Armadas. Estouraram então os casos AlgerHiss, que morreu jurando inocência e, casal de físicos Rosemberg, eletrocutados em 1953.

A doutrina Truman, de enrijecimento militar, é de 1947, e preparou a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN ou NATO – como aliança armada dos países ocidentais, contra a União Soviética, em 1949. Esta respondeu com o Pacto de Varsóvia, anos depois.

Foi quando integrantes mais esclarecidos do Governo Harry Truman (1945/52), reunidos, sob a liderança de George F. Kennan, no Grupo de Planejamento Político do Departamento de Estado, decidiram transferir a questão para o plano econômico. Em fins de 1947 e princípios de 48, emergiu então o Plano Marshall, dentro da ideia de ressuscitar a economia das nações do Ocidente europeu, devastadas pela guerra, questão que interessava muito de perto à Alemanha, França e Itália. Seu montante ascendia a dezessete bilhões de dólares.

Enquanto na primeira, valendo-se da chamada fronteira Oder-Neisse, os soviéticos haviam criado a República Democrática Alemã, do títere Walter ulbritch, nos outros dois países urgia afastar, dos governos de coligação, os partidários dos comunistas George Marshais e Palmiro Togliatti.

Se os centristas do Gal. De Gaulle e os democratas Cristãos de Adenauer e De Gaspa tomaram-se os instrumentos políticos dessas manobras, economicamente sua filosofia de ação residiu no Plano Marshall. Com este, a ajuda concentrada de capitais, sob a forma de transferências unilaterais fluíram para Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Espanha (mas não Portugal), Áustria e Dinamarca, ficando de fora Finlândia e países nórdicos.

Restaurado o poder de compra internacional e a poupança desses Estados, suas economias foram reorganizadas, o que estabeleceu cordão sanitário à ameaça bolchevique. O desafio foi imediatamente compreendido pela URSS que proibiu seus satélites de se filiarem ao plano. Do leste europeu, nele só ingressou a Yugoslávia, apartada de Moscou, em 1948.

O sucesso do Plano Marshall e a China

Os recursos do Plano Marshall não eram rigorosamente doados. Na medida em que se recuperavam, os beneficiários obrigavam-se a comprar aos Estados Unidos os excedentes agrícolas destes.

Tal revelou-se fatal para a Argentina que enriquecera com as exportações de durante a guerra, mas ficou sem mercados para seu trigo. Datou daí o retrocesso, casado com o colapso do peronismo em 1955.

Na Europa, todavia, e principalmente na Alemanha Ocidental, Itália e França, foi inegável o sucesso do Plano Marshall. E isso por uma razão. A permanência de algo que a guerra não lograra destruir: seu know-how, ou seja, a mão de obra especializada desses países.

Assim, quando os capitais começaram a correr, havia como operar as fábricas, pontes, canais e usinas, apenas fisicamente destruídos.

De mais a mais, França e Inglaterra contavam com esquemas de planejamento – o Plano Monnt na França, o Beveridge na Inglaterra – mediante cuja utilização os recursos do Marshall encontraram ressonância.

Onde, isso, porém, não existia, o Plano Marshall não decolou. Foi o caso da China para onde seu mentor – chefe de Estado Maior do Exército e posteriormente Diretor do Departamento de Estado, Gal. George C.Marshall – se deslocou por duas vezes, entre 1945 e 47.

Já, o governo nacionalista do generalíssimo Chiang-Kai-Sher, envolvido pelas negociata e corrução da ala direita de Kuomintang, dissipava os recursos que não tinham como se opor à ofensiva comunista de Mao-Tsé-Tung e Chu-Teh.

Os Casos do Brasil e Japão

Em princípio, o Plano Marshall destinava-se apenas à Europa. Seu êxito, porém, induziu países de fora do Continente europeu a sonhar com recursos frouxamente admitidos pelos Estados Unidos.

Tal o caso do Brasil dos Governos Dutra (1946/51) e Vargas (1951/4) que imaginaram chuva de dólares concedida pelas administrações Truman (1945/52) e Eisenhower (1953/60). Como, todavia, essas ajudas não se materializaram, o Brasil procuraria outros caminhos como os do CEPAL, mediante estudos do grupo misto CEPAL/BNDE, sob o comando de Celso Furtado, em 1953.

A CEPAL, contudo, não se tratava de organismo agenciador de empréstimos, mas formulador de políticas públicas, inspiradas pela dupla Raul Prebisch/Rômulo de Almeida.

Dessa maneira, os mais substanciais capitais americanos só começaram a jorrar, para o Brasil, com o Programa de Metas do Governo Juscelino (1956/61), substituído, na década seguinte, pela Aliança para o Progresso, imaginada pela administração John Kennedy (1960/63). Essa Aliança, espécie de sucedâneo do Plano Marshall, para a América Latina, todavia, não funcionou, adequadamente, no Brasil, onde sobrevieram os embaraços da Política Externa Independente de Jânio Quadros (1961) e reformas de base de Goulart (1961/64).

Nesse contexto, pretender-se novo Plano Marshall para o Nordeste brasileiro equivale a verdadeiro disparate. Se o problema reside em órgão planejador para canalização de recursos, o caminho é o da retomada da SUDENE que, com Celso Furtado, orientou-se nessa direção, de 1959 a 64.

Convém, nesse particular, ressaltar a experiência de nações que ativaram seu desenvolvimento recrutando a poupança interna como foi o caso do Japão sobre o qual existe o livro Japão: Capital se Faz em Casa (1966).

Com efeito, se o antigo micado despontou, na década de setenta, com pujante indústria naval, eletrônica e de veículos, tal se deveu ao trinômio tecnologia própria, disciplina de trabalho e poupança interna.

Este seria o trajeto do Nordeste e o do próprio Brasil.


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