Internacional

Bailarino Katto Ribeiro, radicado há décadas na Europa, relata o drama que é conviver com a discriminação humana em outros países

A Revista NORDESTE apresenta em sua edição, de nº 172, que está nas bancas e disponível para leitura virtual, entrevista com o bailarino brasileiro Katto Ribeiro, que reside há um pouco mais de três décadas na França. Em conversa com o jornalista Walter Santos, ele relata como é conviver com formas diferentes de tratamento e reações contra migrantes – problema comum em diversas partes do mundo.

A nova edição da NORDESTE já está disponível para leitura virtual no site da Revista (www.revistanordeste.com.br) e também no Portal WSCOM. (CLIQUE AQUI para acessar).

Leia a matéria na íntegra:

A FORÇA DA RESISTÊNCIA DOS IMIGRANTES A PARTIR DO SIGNIFICADO DA FRANÇA

Conheça a história de Bailarino brasileiro com dezenas de anos convivendo com a discriminação humana

Por Walter Santos

O registro em larga escala em diferentes partes do mundo sobre tratamentos desumanos a cidadãos e cidadãs considerados imigrantes e até refugiados motiva análises especiais, como faz nesta entrevista o brasileiro Katto Ribeiro, residindo há décadas na França, expõe os dramas desse contingente ameaçado por setores de ultra direita.

Revista NORDESTE – Qual a leitura que você faz da conjuntura atual da pandemia no trato dos cidadãos e cidadãs, em especialmente dos imigrantes? Como o Estado a partir de Europa tem suprido ou não as necessidades?

Katto Ribeiro – A Europa tem uma história muito antiga. As instituições europeias são sólidas, tem um contra poder em todos os escalões da sociedade, por isso a pandemia aqui, principalmente na França, tem sido bem gerida, entendendo que é uma situação inédita pelo mundo todo. A Europa, em relação aos Estados Unidos e a China, tenta ficar pelas vias mais claras possíveis em relação ao business dos laboratórios farmacêuticos, que fizeram um plano de ação que custava muito caro. A Europa se reuniu em torno de um projeto comum – que é comprar as vacinas; entre os 27 países membros da Comunidade Europeia. Eles entraram numa forma bem administrativa e coerente, clara. Então, a questão do tratamento da pandemia aqui na Europa, tem mostrado um Estado que está funcionando. Os países europeus, pela dimensão política, podendo ser até uma hipocrisia, estão funcionando, e neste sentido acolhem pela primeira vez na história da humanidade. Nós todos estamos no mesmo ponto: imigrantes, locais, pessoas instaladas há muitos anos. A Europa com seus problemas de imigração encontrou na pandemia uma forma de igualdade, uma forma de olhar considerando que a vida tem o mesmo preço para todos. Hoje é uma coisa muito estranha, muitas pessoas que estão morrendo aqui na Europa são as que desafiam o poder, que tem certo status na sociedade, por outro lado, ficando vulneráveis aos riscos os que não têm condições. A dificuldade dos imigrantes na Europa aumentou o reconhecimento dos objetivos deles; o de circular, gerar, produzir, existir. Já estava complicado em 2018/2019, lembrando as mais de três mil vítimas do mar mediterrâneo, revelando que a política de imigração não se tornou mais humana, mas que sim, a pandemia ocultou a problemática referente o acolhimento das pessoas que estão migrando, tendo a Europa, obrigação de acolher todos que consigam entrar no seu solo. Dessa forma, essa dificuldade é muito real porque a pandemia colocou todo mundo num plano de igualdade, face à morte, e ela não selecionou, nesse número de guerra.

NORDESTE- Você que mora na França, como relata sua vida como artista – dançarino, para segurar a onda e sobreviver?

Katto Ribeiro – Olha, eu moro aqui na França desde 1984. Posso tentar mandar para você depois uma entrevista feita na época quando eu voltei para o Brasil dois anos depois, o meu estatuto aqui é um estatuto de artista reconhecido, é um estatuto de um artista migrante, que conseguiu estudar, que conseguiu fazer pesquisas, que conseguiu confrontar as suas pesquisas com outros pesquisadores, outros artistas. Nós estamos agora com um projeto muito importante para o Brasil que é a abertura de uma escola de formação cênica e pedagógica com uma relação direta na nossa malha; quando eu falo uma malha, é uma rede de entidades que vão poder receber os alunos que nós vamos formar aí no Brasil. Então, a nossa, a minha situação como bailarino, coreógrafo na França é resultante do esforço e da seriedade que eu levei esses anos todos. Esses últimos 10/15 anos para mim foram anos mais de produção, de formação, de criar projetos para formar e transmitir o que sei. Nesse momento que eu estou muito mais sereno em relação ao nicho da mente, ao mesmo tempo que eu tenho uma urgência junto com a Natália Freire Moura e outros parceiros aí no Brasil, de criar um polo de desenvolvimento coreográfico e pedagógico para poder criar essa ponte entre nós que estamos aqui na Europa, Estados Unidos, no Japão, na África. E esses projetos são ligados ao fato do corpo migrante, para que os artistas possam circular, os artistas possam circular e através dessa influência, criar pontes.

NORDESTE – A Covid afetou todos os segmentos sem exceção, em especial o segmento de arte e cultura. Comparando com a realidade brasileira, como é viver de artes na Europa?

Katto Ribeiro – Eu acho que é coisa bem explícita, está exatamente a mesma coisa em todos os países do mundo, o que difere é que a cultura aqui é institucional, ela é reconhecida como um fator importante no desenvolvimento da sociedade. Recebe subsídios, recebemos ajuda. Nós temos auxílio-desemprego, auxílio artista, agora com a pandemia alguns artistas reconhecidos mais ou menos o que podemos chamar no Brasil de DRT (que é uma licença para ser profissional), são reconhecidos, são auxiliados. Existem centenas de outros artistas que não tem ainda esse reconhecimento profissional que estão assim penando né, mas é uma fase também aonde eu acredito muito que todo aquele que tem fé e tem coragem e que trabalhou, vai conseguir sair desse momento. Nós estamos nos planejando para 22 a temporada que seria para 2021, pois esse ano as ações praticamente não vão existir, do qual vamos executar apenas a partir de setembro. Previsão que em Junho de 2022 tenhamos uma tomada bem lenta, retomando as nossas atividades. O que acontece aqui na Europa em relação ao Brasil é que o Brasil não tem governo, vamos ser bem claros, no Brasil não tem liderança, não tem organização, porque fazem cinco anos que o golpe institucional foi feito, começou na Dilma, com entrada de uma equipe a preparar o terreno para direita, o que fez o fato Bolsonaro. Então, essa é uma realidade que acho apavorante para o Brasil, que nunca esteve nessa situação, nunca, nunca esteve nessa situação, assim, artistas como Caetano Veloso foi obrigado a bater de frente com Bolsonaro e entre outros, é uma realidade muito triste. Mas eu acho, eu acredito que essa pandemia está levando os artistas a terem uma melhor reflexão da potência do que realmente é arte e a cultura, porque sem cultura não se pode ter luz.

NORDESTE – Como a cultura virtual, exposição remota, tem se caracterizado e a pergunta óbvia: tem suprido a falta de presença física?

Katto Ribeiro – Vamos pensar, vamos voltar assim há 20 anos, quando a internet não existia, imagina uma pandemia como está há 20 anos sem internet, sem possibilidade de comunicação, todas essas coisas que hoje exista. O que acontece é que de qualquer maneira o artista ele passa 6 a 9 meses no ano produzindo, escrevendo, ensaiando para trabalhar, três, dois, três meses seguidos no máximo. Uns tem mais sorte, fazem 6 meses, com 6 meses de produção, outros fazem três meses com 6 meses de produção e de presença né. O que acontece hoje é que todos os artistas que tem condições estão no mesmo patamar, não vão poder existir, não vou poder fazer concertos, não vão poder fazer nada relativamente com presença de público, a não ser que estejam fora da lei, que a lei estipula hoje quase no mundo todo, por enquanto, a condição dos artistas não poderem se exprimir de maneira presencial. Graças ao virtual nós podemos comunicar, nós podemos transmitir algo como estamos fazendo agora, entende, eu acho que a questão do virtual é uma ferramenta muito útil, muito bem vinda, desses tempos, ela realmente precisa ser regulada, porque tem muito lixo nas redes sociais etc, mas as ferramentas estão sendo criadas, vamos ter ferramentas mais bem organizadas em torno dos diferentes segmentos da cultura, e o virtual vai fazer parte disso, é uma ferramenta muito importante, então a arte presencial, ou seja, a presença do público ela é uma forma como em outra. Ter público é importante, mas entrar na intimidade de cada um através do numérico é uma coisa única também que tem que ser explorado, tem que ser explorado porque nem todo mundo tem acesso aos teatros. Dar um exemplo, o teatro da cidade de Paris, Teatro De La Ville você precisa de 6 meses de antecedência para ter um lugar nas melhores apresentações, que são dadas nesse teatro, porque é muito procurado, muito procurado, mesmo. Pessoas que não têm condições, que não conhecem não podem ir no teatro da cidade de Paris, então para você ter uma ideia do Teatro De La Ville tá organizando lives, peças únicas, eles estão com essa necessidade ddevido a Covid, assim estão criando plataformas, uma das plataformas chama-se ‘Culture Box’, e é muito interessante que você tá vendo o mundo todo querendo aparecer nessas plataformas, pois é uma forma muito interessante de no bolso de cada, ou seja no celular de cada um.

Entrevista de Katto Ribeiro publicada na Revista NORDESTE (Reprodução)

NORDESTE – Como você auto denomina sua arte e seu acervo?

Katto Ribeiro – Referente ao meu trabalho, sou um cidadão do mundo que coleta na biblioteca da vida a relação corpo – existência. Estou pesquisando faz 40 anos, que construo pesquisas relacionadas as feridas das cidades, ou seja, como as cidades ficam e os seres humanos só passam, as cidades são eternas e Homens só estão passando. Então a minha pesquisa em torno da biblioteca do corpo ver quais são as influências da migração nas grandes metrópoles, como é que a arte está sendo transformada pelas influências migratórias através das grandes cidades. O meu acervo ainda está para vir, o que eu já fiz faz parte de um alicerce, das fundações de um futuro que é a transmissão, que é o projeto de um polo de desenvolvimento coreográfico. Então, como definir o artista? O artista é aquele que nunca fecha os olhos, nunca tapa os ouvidos e ele não deixa te falar. Então eu estou em uma fase muito boa de silêncio, não estou Inativo, mas isso é muito ótimo, é como semear. Então estamos observando o mundo enclausurado, fechado, e coisas novas estão nascendo a partir do momento que estaremos em movimento mais uma vez, porque o mundo vai tomar seu movimento, vai voltar a se movimentar eu vou estar de novo como já estou atuando.

NORDESTE – A migração é hoje um dos assuntos mais fortes nas sociedades por motivos de toda a ordem. A França é um dos países referência de conviver com resistência aos imigrantes. Como está a situação hoje?

Katto Ribeiro – A migração hoje é um artefato político porque a questão dos artefatos é que eles criam falsos demônios. A mão de obra, 70% da mão de obra na Europa é de origem migratória, ela vem de outro lugar, praticamente todos os compartimentos da economia europeia são alimentados por Imigrantes e migrantes. Existem aqueles europeus que migraram de um país para o outro e extra europeus que vem para a Europa, porque tem um espaço muito grande para todos aqui na Europa como todo mundo. Acho que a economia mundial ela está se tornando mais uma relação norte-sul, sendo Sul a próxima potência mundial que nós vamos passar a Europa, o Brasil, a América Latina, o hemisfério sul daqui a 20/30 anos vai estar na frente da Europa, o Hemisfério Sul vai ser por ser maior, por ter uma população jovem, por ter mais recursos, água, terra e outros. Você tem um exemplo, uma ideia do que tá acontecendo aqui, a China ela tem o solo, mas ela tá comprando terras em todo mundo né, ela comprou uma parte da África dando subsídios para os países africanos e ela tá se instalando no mundo todo, entendeu, o hemisfério norte todo está de olho na no hemisfério Sul. Então o que acontece aqui é que a França como todos os países europeus ela está envelhecendo e, como ela está envelhecendo, todo velho tem medo do que ele não conhece. Então quando você não conhece, você tem medo e aqui as pessoas têm medo do que eles não sabem, que eles nunca viveram. Há situações como essas a França sofreu um capítulo da história foi a Segunda Guerra Mundial porque foi um dos países que se vendeu para o Nazismo, ela se vendeu, ela tem um passivo muito grande porque ter sido um países do bloco colonialista no século 18/19, esse bloco colonialista que eles fazem parte né: Alemanha, a Bélgica, a Espanha, a Itália, a França, a Inglaterra, lógico são os países chaves que levaram a essa situação de imigração econômica e nós vamos entrar numa outra era de migração econômica, mas também climática, e hoje na migração invertida, quero ser bem claro isso, tô falando de migração invertida pela Covid. Então os europeus estão saindo da Europa, americanos estão saindo dos Estados Unidos, então era onde tem as pessoas tem dinheiro tem condições estão abandonando os países do Hemisfério Norte, está se esvaziando porque os europeus estão indo se instalar em países como o Brasil, como Caribe, México, eles estão fugindo porque a Europa ela está se consumindo de uma certa forma, porque não tem como se renovar, é uma terra antiga, então ela está se consumindo pouco a pouco e a situação se torna cada vez mais complicada, porque as pessoas elas precisam atacar alguém, elas precisam ter um inimigo que elas precisam, colocaram a imigração de uma certa forma como um o inimigo palpável. Não tem mais Guerra, tem outras guerras, mas a grande guerra acabou então eles estão alimentando outras polêmicas, políticas, econômicas da necessidade da Europa e aqui é que a Europa só existe porque a imigração e a migração, emigração, imigração são muito forte. Então eles estão agora com a covid invertendo o processo. O europeu está querendo sair das grandes cidades, europeus estão querendo sair da Europa querendo ir para onde a humano ainda existe e o Brasil tem muito humano.

NORDESTE – por que, na sua opinião, cresceu tanto o movimento de ultra direita nos continentes e países, vide França e Brasil?

Katto Ribeiro – O conservantismo da direita, da Ultra direita como vocês estão falando, que que tá acontecendo… o país depois da última grande guerra, entrou no processo de reconstrução, mas as ideias ficaram. A Europa é um lugar no mundo aonde conservantismo é forte né pela sua história mesmo, só você viajar no tempo, as cruzadas, a colonização, as grandes guerras, 1916/17/18 e os anos 40 a Segunda grande Guerra, sem parar sem falar de outras guerras não é, nos anos 70. O que acontece é que é a herança da colonização, o fundamento da colonização, ela criou, ela levou, ela exportou uma doutrina, essa doutrina é chefiada pela elite constituída, é elite constituída, religiosa, econômica, social, essa elite constituída ela sempre existiu e essa elite constituída ela está hoje assumindo a sua posição. Mas ela encontra justamente graças à internet e as redes sociais uma certa unidade popular que está sendo fazendo fácil, se opondo de uma certa forma à subida dessa radicalização, de uma certa forma precisa ser bem claro. A questão da radicalização política no mundo de Donald Trump, de Jair Bolsonaro, do presidente da China, o presidente da Turquia, os países africanos que estão dando África para os extremistas muçulmanos, é bem mais fácil você criar o caos porque o que acontece aqui, eles querem criar o caos, é bem mais fácil você liderar a população uma vez que eles estejam desmobilizados, desmoralizados pela dificuldade de existir, do que ver um povo animado, festivo, estudando, trabalhando, produzindo. Como é que eles chegaram lá, como é que eles conseguiram chegar no poder? Isso é aquela coisa que nós já sabemos, são manipulações de bastidores. A agroindústria, as bolsas de valores, ou seja, economia, as diásporas que estão atrás da economia mundial estão colocando, facilitando o acesso dos extremos porque quanto mais extremos mais dinheiro vão poder ganhar.

NORDESTE – Como projeto em curso para dimensionar a importância da cultura de melhor trato dos imigrantes merece apoio total da sociedade?

Katto Ribeiro – Toda a sociedade é composta de imigrantes nós somos todos migrantes, nós ser humano, é um ser Imigrante, ele nasce aqui, mora ali, ele é uma coisa muito, muito, muito natural, o que que a gente vai fazer nesse projeto é realmente demonstrar a influência do código migrante na sociedade como um todo, na sua forma de ser existir, de se movimentar, tudo faz parte, a sociedade como um todo é uma sociedade miscigenada, cosmopolita. O mundo é uma grande miscelânea excelente miscigenação, mistura e o que nós vamos fazer como projeto vai se apresentar, nós estamos estudando ainda finalizando esse processo porque normalmente seria o projeto era ajustar no Brasil, para uma vivência artística aí a partir dessa vivência artística restituir o que eu vivi, como que eu estou vivendo como migrante e como a minha vida está se passando hoje. Eu acredito que nós vamos apresentar vários debates, vamos estar com uma apresentação que eu vou construir, editar um pequeno curta-metragem em seguida de uma palestra e eu vou apresentar um pequeno espetáculo também. Nós estamos definindo com a Nathalia Freire Moura a programação, de que maneira realmente vamos fazer com que esse projeto seja maior, como é que nós vamos fazer para que a maior número de pessoas possam estar ligados a esse projeto. Então nós vamos apresentar uma série de debates, uma série de curtas-metragens em torno dessa, não são curta-metragem, são pequenas cenas que eu vou incluir com uma performance minha que eu vou apresentar, detalhando um pouco de todas essas questões que você me pôs hoje. Faz parte do processo de criação, então existem várias outras pessoas que vão enviar também o que elas pensam, elas, dos corpos migrantes, então eu vou me alimentar de tudo isso para que a performance. Então vamos mostrar aqui através de pequenos tapes que eu vou fazer. Eu moro em Marselha, então a ideia é mostrar que o porto acolhe uma população muito miscigenada e como a migração influenciou aqui e influenciou no mundo né, como nós, o mundo se tornou diferente a partir do momento que nós admitimos que somos todos de qualquer, de um outro lugar.


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